Para não dizerem que não falei das folhas

Fotografia Brune Saavedra

A Galeria da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, em Lisboa, acolheu no passado mês de Dezembro o evento do lançamento do livro Para não dizerem que não falei das folhas, do fotógrafo luso-brasileiro Bruno Saavedra (Itamaraju, Bahia, Brasil, 1987).

As emoções sentidas por Saavedra na sua primeira incursão em São Tomé e Príncipe, no início de 2019, desencadeiam a concepção e o desenvolvimento de um projecto fotográfico, agora editado em livro. A convivência e a proximidade adquiridas com a comunidade da Roça Agostinho Neto, em São Tomé, os sentimentos ali experimentados, motivam-no a retratar as pessoas deste local em particular.

No intuito do fotógrafo está uma chamada de atenção para os espaços das grandes roças e os seus habitantes, numa mensagem que pretende ser de esperança no futuro. Do corpo de trabalho executado nesse ano surge Esperança, uma exposição solidária com essa comunidade, apresentada logo após o regresso a Lisboa. Em janeiro de 2020 Saavedra volta a São Tomé e Príncipe, para aí dar a conhecer Esperança e retomar o projecto no terreno.

Para não dizerem que não falei das folhas constitui mais um passo neste percurso.   

Bruno Saavedra mostra-nos registos de homens e mulheres que cruzam o seu caminho, num processo que tem muito de descoberta: do outro, enquanto ser humano, das vivências dos ilhéus, que remontam às origens do próprio fotógrafo. O seu olhar capta a singularidade dos jovens e das crianças com quem convive, não descurando o foco na sociedade onde estão inseridos.

Cada indivíduo aparece contextualizado no seu meio ambiente, em planos abertos e médios, numa atitude natural ou por vezes ligeiramente encenada. Vistas gerais dos espaços naturais, ou pormenores culturais, em enquadramentos mais fechados, propiciam quebras bem conseguidas no alinhamento dos retratos deste photobook. Uma vez mais no seu percurso artístico, Saavedra recorre precisamente ao uso do retrato para pôr em evidência questões sociais, tecendo uma narrativa sensível, verdadeira e de grande respeito para com os envolvidos.   

A identidade de São Tomé transparece nas imagens. Está presente nas expressões dos rostos, nas cores e padrões dos tecidos, nos comportamentos, na natureza circundante, nos espaços interiores. A vegetação exuberante, as folhas verdes e carnudas características destas latitudes têm aqui um lugar de destaque, desde logo, quando atentamos no nome atribuído ao livro. O fotógrafo desperta-nos a curiosidade perante esta frase que constitui um sugestivo título, para  depois reconhecermos ter sido uma escolha acertada. Ao fim e ao cabo, estas folhas são uma identificação da tropicalidade desta ilha, um elemento que a define.

A ficha técnica do photobook garante-nos um trabalho de pormenor. Curadoria de Pauliana Valente Pimentel, texto de Nuno Verdial Soares, desenho gráfico de Fernando Pina, tratamento de imagem de Helena Gonçalves (Black Box Atelier) e  impressão da Matriz Radical.

A apresentação e o conteúdo de Para não dizerem que não falei das folhas assegura-nos um livro marcante, enriquecedor de qualquer biblioteca. É adquirir um exemplar!   Margarida Neves

Fotografia Bruno Saavedra
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