Nas Carpintarias de S. Lázaro, em Lisboa

Nas Carpintarias de S. Lázaro, em Lisboa, está patente ao público um conjunto de exposições integradas no Imago Lisboa Photo Festival 2020. Sugerimos uma visita já que além de outros olhares, de alguns trabalhos muito interessantes, ali temos também um conjunto de projetos onde a importância do conceito está muito presente, mostrando uma contemporaneidade dos olhares presentes e da coerência e solidez dos projetos.

Se quiséssemos destacar alguns dos trabalhos presentes poderíamos começar por Catarina Osório de Castro que nos leva a descobrir o que está para além das portas das casas de família, conseguindo transmitir-nos ambientes de reflexão nas suas paisagens, ou de intimidade, seja numa paisagem, seja no caso dos retratos apresentados, onde ressalta uma iluminação marcante, ou dos pequenos objetos pessoais.

Paulo Catrica, muito na linha do que já nos habituou noutros trabalhos, mostra-nos a paisagem urbana numa relação entre o Homem e o espaço, onde se destaca uma acentuada componente documental. Sendo de notar uma notável coerência visual e estética no conjunto apresentado, Paulo Catrica não procura as componentes da paisagem clássica, quer no formalismo da composição, quer nos estereótipos pelo recurso comum ao sublime paisagístico ou a peças marcantes da arquitetura, escolhendo propositadamente o urbano “menos bonito”, mas que paradoxalmente nos conduz a imagens harmoniosas e belas. Para além de um sentido crítico que se vislumbra mas que não se impõe aos olhos do visitante, é uma notável interpretação do espaço urbano e da relação deste com o humano e a vida em sociedade que merece ser vista com atenção.

Ao sermos recebidos por uma diversidade de olhares deparamo-nos com a proposta de Cristina Dias Magalhães, que nos mostra um caminho diferente. Ao levar-nos para o mundo do imaginário infantil, não somos mais adultos a ver coisas que as crianças também veem, mas somos levados a interrogar-nos de como e do porquê da visão ou da importância que as crianças dão às coisas. É um trabalho que nos leva a ver o mundo animal e a importância dos animais no crescimento de uma criança, algo que o com tempo não são poucos os adultos que o esquecem. Por outro lado, sob o ponto de vista formal, é inteiramente conseguida a opção pela apresentação em dípticos, que nos acentuam a ideia de uma história feita de momentos, segmentada, como se da vivência de uma criança se tratasse.

Maxim Ivanov remete-nos para a nossa insignificância, qual ponto de luz num imenso universo negro. Destaque para a inteligente interpretação formal deste projeto, usando as ferramentas técnicas adequadas, e destaque também para o livro publicado e em exposição, um interessante trabalho de design e de tipografia, bem concebido e irrepreensivelmente executado nas janelas de corte.

Destaque também para o trabalho de Paola Paredes, uma exposição que, recorrendo a imagens encenadas, nem por isso elas deixam de ser violentas. É uma realidade absurda, mas que ainda campeia por aí, que nos faz acordar para certas formas de pensar e de nos relacionarmos com o outro. É claramente uma exposição em que a autora toma posição contra as casas de “correção sexual” existentes no Equador, onde sentimos essa posição, onde é impossível não tomar posição face à feminilidade forçada, a momentos de tortura ou à violação “corretiva”.  

Nas imagens apresentadas na cave das Carpintarias não podíamos deixar de destacar Pasha Rafiy pelo seu virtuosismo técnico, visível na iluminação cuidada, na extensa gama tonal, ou, sob o ponto de vista estético nos ângulos escolhidos, num formalismo provocador. A sua opção pelo médio formato é simultaneamente ajuda e consequência no sublinhar destas características.

Por último sugerimos alguma atenção a alguns trabalhos apresentados e referentes à short list das candidaturas ao Prémio Discovery dos Encontros da Imagem 2020. Há trabalhos notáveis em termos de modernidade ou de iluminação a que vale a pena dar atenção. António Lopes

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