Children of the Deer, de José Luís Carrilho

Fotografia José Luís Carrilho

Integrada no Festival Encontros da Imagem 2020 está patente até 17 de outubro, no MIRA FÓRUM, no Porto, a exposição Children of the Deer, de José Luís Carrilho. A exposição que reflete a preferencia do fotografo pela imagem documental, é-nos apresentada uma das zonas mais despovoadas de Espanha, o Vale do Alto Tejo, também conhecida por Sibéria Espanhola.

José Luís Carrilho centrou-se na beleza natural destes lugares junto à nascente do Tejo, mas também na sua importância histórica e antropológica, fazendo relacionar os seus habitantes hoje com a sua herança genética e cultural que remonta à ocupação celta da região. Ressalta a vida num local difícil, onde as amplitudes térmicas são grandes, onde no inverno facilmente se atingem temperaturas negativas extremas, onde estamos longe dos confortos da cidade. Em entrevista ao suplemento P3 do jornal Público, na pessoa da jornalista Ana Marques Maia, o fotógrafo refere que no início deste trabalho se sentiu perdido e desorientado, não tendo inicialmente conseguido “agarrar” o que pretendia documentar. A par disso, a solidão, o frio e a timidez das pessoas não facilitaram o seu trabalho, dificuldades às quais se soma o facto de muitas das pessoas estarem habituadas a viver sozinhas e serem pouco abertas a conviver com os outros, mas que no fim se revelaram muito sinceras e muito honestas tornando o projeto recompensador.

Fotografia José Luís Carrilho

É também um trabalho que mostra o envolvimento do fotografo com os habitantes locais, fruto de um esforço prolongado de nove meses, que mostra a desertificação humana da região, a sazonalidade da ocupação e naturalmente o preservar de velhos usos e tradições. Childrem of the Dear, ou os Filhos do Cervo, porque nesses hábitos ancestrais o veado é um animal totémico, amplamente representado no imaginário popular e muito presente na vida diária. Um pouco por todo o território encontram-se representações deste animal, de uma forma quase obsessiva, do mesmo modo que os seus habitantes têm um notável respeito pelo passado, materializado nos bosques, nos cemitérios e castros ou nas festas das aldeias. Tanto, que o fotografo refere que as gentes locais tratam as pedras e as árvores pelo nome próprio, como se de gente se tratasse, explicado pela prática animista, reflexo da cultura de tradição celta.

Se a exposição fotograficamente é importante para todos quantos gostam de fotografia, igualmente muito importante se torna para os fotógrafos, como forma de pensar e de se envolver com um projeto. Como forma de documentar uma realidade em vias de desaparecimento e como forma de viver a fotografia. Tudo recompensas para quem ama a fotografia.

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