Lisboa ainda, no Museu da cidade

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Fotografia de Pedro Nunes

No Museu da Cidade, em Lisboa, pode ser vista até setembro a exposição Lisboa Ainda, quatro visões distintas, mas complementares, da cidade em quarentena. Ali se reúnem os olhares de quatro fotojornalistas sobre a cidade, inspirados no poema Lisboa ainda, de Manuel Alegre. Olhares distintos na forma como tratam o tema, nas suas opções estéticas e metodológicas, mas que conseguem apresentar uma exposição coerente pela apresentação, pelo ritmo e pela boa impressão laboratorial.

Fotojornalistas com percursos diferentes: Tiago Miranda, Pedro Nunes, Luís Miguel Sousa e José Fernandes, conseguem retratar a vida de uma cidade, profundamente alterada na sua vivencia e nos seus ritmos, estranha mesmo aos seus habitantes. É uma cidade que não apenas se identifica plenamente com o poema de Manuel Alegre que acompanha a exposição, como traduz em imagem uma cidade deserta, parada e silenciosa, como foi a Lisboa do confinamento com o encerramento de quase todas as suas atividades económicas. É sem dúvida um momento histórico, mas é também um documento notável dos quatro fotógrafos envolvidos neste projeto: Pedro Nunes (Caldas da Rainha, 1976), que fotografou a cidade na primeira manhã da primeira segunda feira da primeira semana da quarentena, mostra-nos uma cidade triste onde conseguimos ouvir o silencio que perpassa por aquelas ruas e praças, num tempo suspenso, que é também uma reflexão sobre o mesmo, inspirado em Josef Koudelka, como bem é referido no catálogo. Luís Miguel Sousa (Lisboa, 1972) procurou o mesmo enquadramento feito tempos antes em lugares repletos de turistas. A cidade que nos mostra já não é feita de multidões ou de novas tecnologias com os meios de transporte da moda, mas antes de solidão e de ausências. Tiago Miranda (Lisboa, 1978), por seu lado, fotografou a cidade a partir da janela do automóvel tratando a cidade como um não lugar. Vêm-nos à memória as imagens de Bernard Plossu sobre o Porto, lembrando-nos que uma cidade é um corpo vivo que quando não se mostra como tal nos parece estranha. Interessante em termos cénicos aquele bloco central, isolado e só, tal como as suas imagens. Já José Fernandes (Mortágua, 1986), mais do que as presenças e a vida, fotografa as ausências, como se nós que vemos as imagens quiséssemos ter de volta as pessoas que ali faltam, como que a chamar-nos à atenção para o facto de que a cidade é também feita de vida transmutada em pessoas e árvores e não apenas de edifícios de pedra.

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É uma exposição documental que para além de se constituir como tal, nos faz pensar nas alterações que o nosso quotidiano sofreu e no tipo de sociedade em que estamos inseridos e para a qual contribuímos. Afinal um atributo de uma boa exposição. Uma exposição que nos faz pensar nos inúmeros pequenos gestos que desvalorizamos de tanto os repetirmos ou que nos parecem banais, que nos faz pensar nos outros, os outros que afinal ali faltam naquelas imagens.

Resta referir que o projeto expositivo é de Rita Palla de Aragão. Uma exposição que vale a pena ver (e sentir)! António Lopes

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