Quel Pedra, de Pauliana Valente Pimentel

Captura de tela 2020-01-17 às 15.11.43

Na Embaixada de Portugal em Bruxelas, na Sala Damião de Góis, está patente ao público Quel Pedra, exposição individual da fotógrafa e artista visual Pauliana Valente Pimentel (Lisboa, 1975), entre os dias 17 de Janeiro e 14 de Fevereiro próximos.

Inserido num corpo de trabalho que tem vindo a desenvolver sobre a temática da juventude e as suas problemáticas, o projecto fotográfico de Pauliana dirige o nosso olhar para um grupo de oito rapazes transgénero, cujas idades se situam entre os dezassete e os vinte e cinco anos, residentes na ilha de São Vicente, em Cabo Verde. Esta pequena comunidade assume a sua homossexualidade, o gosto por roupas e adereços femininos e adopta nomes que geralmente atribuímos a raparigas, manifestando a sua diferença perante os padrões instituídos pela sociedade.

A legalização em 2004 da actividade sexual entre pessoas do mesmo sexo, em Cabo Verde, não erradicou a intolerância e a hostilidade acometidas contra homossexuais aqui e em várias outras regiões de África. Excepcionalmente em São Vicente esse comportamento agressivo não é notório, permitindo a estes rapazes um percurso sem grandes sobressaltos, no meio que os rodeia. A fotógrafa traça em imagens uma narrativa forte, capaz de nos provocar de imediato uma reacção sem, contudo, cair em excessos de atitude por parte dos retratados.

Serenidade e dignidade surgem nos documentos efectuados por Pauliana a par com uma envolvência árida, característica destas coordenadas geográficas, simbolizando, quiçá, algo severo ou rígido que possa perturbar a tranquilidade destes jovens. A identificação do espaço tem sido um factor importante nos diversos trabalhos de Valente Pimentel, característica que se mantém presente, contextualizando os envolvidos na sua realidade. Momentos do quotidiano são captados pela lente da fotógrafa, procurando destacar a beleza de cada situação, numa harmonia visual que nos remete para o universo da pintura. E é neste campo das artes visuais que, segundo Valente Pimentel, se encontra a base subjacente ao seu olhar, factor que marca todos os enquadramentos que faz.

Retratos, paisagens e ambientes formam um conjunto bem estruturado e diversificado, realizado em duas fases, a inicial no final de 2014 e a final em Março de 2016. A artista visual não abdica do tempo necessário para se tornar uma presença aceite e invisível aos olhos das pessoas que fotografa, com o objectivo de mostrar o lado oculto e interior de cada um. Como resultado dessa familiaridade alcançada, a individualidade de cada retratado é-nos dada a conhecer de uma forma delicada, espontânea e sem juízos de valor. Profundidade na observação e sensibilidade para fixar o instante decisivo desprendem-se dos registos expostos, evidenciando a dedicação de Pauliana ao documentar este grupo.

A luminosidade suave que predomina em todo o projecto contribui para acentuar uma atmosfera aparentemente pacífica mas capaz de gerar animosidade, onde o feminino se mistura com o masculino, em poses cuidadas que ultrapassam géneros e questionam identidades. Ao citar Simone de Beauvoir, “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, estimula-nos a repensarmos comportamentos e a redefinirmos o significado de ser mulher nos dias de hoje.

Quel Pedra, versão em criolo para “Aquela Pedra” reporta-se ao mito existente no Mindelo, em São Vicente, sobre uma dita pedra que torna homossexual quem quer que se sente nela. Pauliana Valente Pimentel confronta-nos com as nossas próprias inseguranças, convenções e suposições, trazendo-nos uma peculiar e relevante perspectiva da actualidade. A Embaixada de Portugal em Bruxelas é, por tudo isto, um ponto de paragem obrigatória para quem esteja nas redondezas! Margarida Neves

 

 

 

 

 

 

Esta entrada foi publicada em Notícias. ligação permanente.