O narcisismo das pequenas diferenças

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Fotografia Pauliana Valente Pimentel

No Arquivo Fotográfico de Lisboa está patente ao público, até 11 de janeiro, O Narcisismo das pequenas diferenças de Pauliana Valente Pimentel. Acompanha a exposição uma folha de sala, bem concebida e esclarecedora, e um catálogo com imagens que vão para além das selecionadas para exposição.

É uma exposição que retrata a população jovem da ilha de S. Miguel, nos Açores, e embora a autora tenha dado uma particular atenção à vila de Rabo de Peixe, a verdade é que aquelas imagens nos mostram a Relva, a Ribeira Grande, ou até Ponta Delgada, locais grandes e pequenos com muito em comum. Quem conheça a realidade local consegue identificar naquelas imagens realidades e anseios culturais, tradições e práticas, formas de pensar e de olhar para si e para os outros.

Diz-nos António Pedro Lopes, autor do texto da folha de sala que acompanha a exposição que “estudam, trabalham, trabalham enquanto estudam. Todos têm telemóvel, ouvem música tiram selfies e sabem o poder que uma fotografia carrega”. Nesta altura poderíamos dizer que seriam jovens de qualquer ponto do país. Mas o autor esclarece-nos, e as imagens traduzem isso, que “andam a cavalo, participam em bailes de debutantes onde são apresentadas à sociedade e fazem surf e patinagem artística. Vestem-se de princesas e bandeiras dos Açores, mostram-se com a roupa das mães e brincam aos editoriais de moda. Aparecem em casas centenárias, palácios com animais embalsamados, em clubes sociais privados ou em cavalariças com cavalos brancos. Pergunto-me se são de famílias de brasão, que último nome têm, de “quem são ?” – a pergunta primeira que persiste em sair das bocas desconfiadas, que definem e categorizam o outro a partir da sua família.” Este relato, que o autor do texto transmuta em palavras da autora, pode dizer-se, resume toda a exposição e é uma ajuda ímpar para compreendermos aquelas imagens.

Na folha de sala que acompanha a exposição a autora confessa-nos que depois esquece estas condicionantes “porque na diferença, eles abrem as portas dos seus universos, as suas ruas, salas-de-estar ou quartos de cama. Quartos decorados por si, ou então não, são mesmo os seus quartos nas casas dos pais. Quartos com registos do Santo Cristo dos Milagres, colchas de enxoval, móveis antigos ou, então, papéis de parede baratos floridos, e padrões tigresse e zebra”. Não se pense que estas palavras transmitem um olhar crítico. São, principalmente, palavras de compreensão, que nas imagens se transformam em proximidade e cumplicidade, características fundamentais num projeto documental como este baseado no retrato e no registo de ambientes, algo que só se consegue com confiança e compreensão, sem juízos de valor prévios ou o olhar ligeiro do curto espaço de tempo de uma visita turística. Aliás, no texto de parede é referida a importância da estadia prolongada e repetida da autora na ilha, que permitiu a sua entrada no espaço íntimo dos retratados, notando-se como traço de união entre todas as imagens a cumplicidade entre cada um dos retratados e a autora. Só isso possibilita aqueles olhares, expressões e poses.

Paradoxalmente há em toda a exposição uma certa melancolia, que traduz também uma certa opção estética da autora, que se materializa nas poses e numa atitude aparentemente alheada, nos ambientes ou nas imagens da floresta micaelense, onde não faltam os nevoeiros e as neblinas. Este trabalho, feito em 2017, mostra-nos uma genuinidade, mas também a irreverância, a vida calma da ilha a par com a alegria típica de quem é jovem, a liberdade da diferença, mas igualmente o peso da tradição, que é particularmente sentido em S. Miguel e expresso nas referências e práticas religiosas.

E se todas as imagens transpiram autenticidade, não é menos verdade que estas fotografias  carregam um rigor e um domínio técnico merecedores de referencia e que pode ser visto na medição de luz ou na correção de perspectivas.

Inspirando-se em escritos de Freud, o título O narcisismo das pequenas diferenças, está espelhado nas imagens de cada um voltado sobre as suas próprias diferenças, tal como nas palavras de António Pedro Lopes quando afirma que aqueles jovens “carregam o corpo com orgulho, com a força de serem tudo o que quiserem e puderem ser, ou lhes deixarem ser ou os educarem para ser. São eles ali, num choque entre a sua cultura e condição”. A não perder, até janeiro. António Lopes

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