Made in China / China, China, China, de Bruno Saavedra

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Fotografia Bruno Saavedra

A Galeria do Solar dos Zagallos, na Sobreda em Almada, apresenta Made in China e China, China, China, duas leituras paralelas que compõem a exposição individual do fotógrafo Bruno Saavedra (Itamaraju, Bahia, Brasil, 1987), patente ao público até 20 de Outubro próximo.

Um retrato da população chinesa que habita e trabalha no bairro do Intendente, em Lisboa, constitui o mote para o conjunto das 19 imagens de Made in China, um projecto fotográfico que resultou da participação de Saavedra, em Novembro de 2016, na 5ª edição do Workshop “Narrativas Fotográficas do Intendente”, a cargo de Pauliana Valente Pimentel. Sobrepondo-se a um registo puramente documental e objectivo desta comunidade fechada e de difícil acesso para um ocidental, o fotógrafo envereda por um olhar atento a pormenores, subtil e exótico, onde o quotidiano de uma “Chinatown” que assenta arraiais nesta zona multicultural da capital portuguesa nos é revelado de uma forma velada mas assaz consistente.

Saavedra partilha detalhes de momentos e de espaços, prendendo a nossa atenção com o ambiente singular ao qual lhe foi concedido uma visível entrada, facilitada pelas suas vivências nos anos que residiu em Macau e fruto de um trabalho persistente e intenso ao longo de cerca de 3 meses. Nos registos do fotógrafo afirmam-se costumes e realidades próprias de uma Ásia que identificamos, onde objectos e rostos se manifestam com contenção, deixando transparecer um clima algo enigmático e denunciando os limites impostos por uma marcante herança cultural.

A narrativa visual que vai desfilando perante os nossos olhos conta-nos histórias de uma China que se instala no Intendente de modo recorrente, à semelhança de outros lugares do mundo ocidental, sem perder a sua identidade e a filosofia que rege o seu dia a dia. Gentes comuns que se dedicam arduamente ao trabalho em áreas específicas, como sejam a restauração, o comércio e a medicina tradicional, são postas a descoberto em perspicazes enquadramentos de interiores ou de exteriores, onde uma leitura cuidadosa da nossa parte não elimina interrogações nem ultrapassa barreiras latentes.

Bruno Saavedra oferece-nos um testemunho da comunicação conseguida a custo com esta sociedade, numa visão que pretende criar um distanciamento implícito, réplica das experiências presentes ao longo do projecto desenvolvido no terreno. As escolhas que o fotógrafo faz em torno do que lhe é dado a conhecer, denotam uma fuga ao trivial num interessante diálogo cromático, ilustrando modos de vida e tecendo retratos que não se esgotam, numa tentativa de entendimento deste povo que se encerra em si mesmo.

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Fotografia Bruno Saavedra

China, China, China é um trabalho mais recente, efectuado no passado mês de Setembro, aquando da curta estadia de Saavedra em terras do Oriente. Aqui, o fotógrafo desenvolve um paralelismo evidente com Made in China, retratando agora o povo chinês no seu território, nomeadamente em Macau, em Hong Kong e na China.

A ponte que o fotógrafo estabelece com o projecto anterior revela-se nos novos pormenores, ambientes e situações captadas que nos remetem para um mesmo universo onde o exotismo, a curiosidade e as interrogações permanecem. Ao enveredar por caminhos que lhe trazem memórias dos tempos aí vividos, Saavedra regista a cultura oriental na sua origem, com imagens que se afastam do óbvio, palmilhando fronteiras e abrindo horizontes no seu relacionamento com essa realidade.

A fotografia analógica é a técnica utilizada neste seu segundo trabalho, denotando um novo rumo por oposição ao digital que o caracteriza. A pequena sala onde o apresenta, contígua à principal para Made in China e com uma iluminação reduzida e personalizada, incita-nos à exploração de algo que se encontra aparentemente oculto, salientando deste modo, a dificuldade de compreensão da natureza do Oriente perante o olhar do Ocidente.

Made in China levanta um véu mas não desnuda indivíduos nem quebra os laços que os sustentam enquanto agrupamento, convidando-nos à reflexão. Exposto na Casa Independente no Largo do Intendente, em Lisboa, em 2017 e na Galeria de Arte da Fundação Rui Cunha, em Macau, em Setembro do corrente ano, estreia-se agora na margem Sul do Tejo a par com China, China, China que lhe acrescenta uma outra dimensão. Uma visita que vale a pena! Margarida Neves

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