É o povo que faz a fotografia de Jorge Guerra

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É o povo que faz a fotografia de Jorge Guerra”. Quem o escreve é Jorge Calado no texto “Corpos Urbanos” e apresentado na folha de sala da exposição Saudade de Pedra de Jorge Guerra (Paço d’Arcos, 1936). A exposição é apresentada até 29 de junho no Arquivo Fotográfico de Lisboa, na Rua da Palma 246, tendo curadoria de José Luís Neto.

Um exaustivo catálogo acompanha esta exposição, retrato do que é apresentado, com bons textos que permitem a compreensão do trabalho do fotógrafo e do contexto fotográfico da época. Pena que a impressão esteja longe das imagens que podem ser vistas na exposição.

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Influenciado pelo ambiente dos Salões da década de sessenta, Jorge Guerra encontraria o seu caminho numa fotografia genuína e profundamente humana. Recordamos que Jorge Guerra, depois da sua passagem por Angola na década de sessenta, teve em Londres o seu destino. Pelo meio voltou a Lisboa, mostrando-nos hoje esta Lisboa, vindo a fixar-se no Canadá, onde fez fotografia e cinema e onde durante muitos anos dirigiu a OVO, a mais importante revista de fotografia do Canadá. Dirigida por Jorge Guerra e Denyse Gérin-Lajoie, foi publicada entre 1972 e 1988, por ela tendo passado fotógrafos como Joel-Peter Witkin, Alvarez Bravo, Édouard Boubat, Cartier-Bresson ou Sebastião Salgado, entre muitos outros.

No Arquivo Fotográfico Saudade de Pedra retrata-nos uma Lisboa do passado (as imagens foram captadas em 1966 e 1967), cheia de contrastes, por um lado dona de uma luz vibrante, por outro lado apresentando-se como uma cidade triste e monótona tal como o país de então. Não é uma contradição. É como se a cidade escondesse a sua luz tal como os pensamentos. Hoje, quando olhamos para estas imagens, não podemos deixar de ficar impressionados pelo cinzentismo de gestos e olhares das pessoas fotografadas, das paredes e coisas que registadas e que no seu todo fazem a cidade. Uma cidade que é preciso conhecer muito bem, sentir o seu pulsar, compreender, para fazer aquelas imagens. Nesse tempo não se falava de “fotografia de rua”, mas é-o, com a diferença para os nossos dias no facto de em todas as imagens Jorge Guerra dignificar as pessoas. Jorge Guerra definiu uma forma de trabalhar o uso de uma máquina fotográfica de pequeno formato com uma teleobjetiva, e recorde-se que estamos nos anos sessenta, caminhando pela cidade e fotografando as pessoas de longe sem que elas o vissem.

As pessoas são o centro da nossa atenção, mesmo quando olhamos para um velho cacilheiro ou olhamos as malas e trouxas que saudosamente partem ou deambulam pela cidade. A cidade é o cenário, onde pontuam mercados, miradouros e cacilheiros. A exposição em si é uma excelente lição de História. E é com as pessoas que Jorge Guerra nos consegue criar empatia. Pela sua técnica, pela sua forma de fotografar, pelo momento do disparo. Em fotografias muito bem impressas registe-se, mais do que retratos de gente genuína, Jorge Guerra consegue registar estados de alma, emoções ou momentos de melancólica contemplação. Em todas elas o momento é tudo.

É também uma exposição importante para a história da fotografia portuguesa. Para a conhecer e preencher lacunas. Alexandre Pomar, a propósito desta exposição, escreve que “as fotografias de Jorge Guerra não foram divulgadas no seu tempo próprio, mas são um marco essencial dos anos 60 (1966), enquanto retrato da cidade no fim do regime de Salazar”.

Nota-se nelas uma visão cinematográfica, talvez motivada pela sua paixão pelo cinema. Nelas também se nota uma forma de olhar para as pessoas, talvez fruto de uma formação cultural cuidada.

Esta é uma exposição cuidada. Merecia um pouco mais. Um visitante que na altura estava na sala ao mesmo tempo que nós, queixava-se de naquela sala tão grande não haver um banco, à semelhança do que acontece em muitos museus e galerias. Era a cereja em cima do bolo. Um banco de jardim, tipicamente lisboeta, encaixava perfeitamente naquela Lisboa para vagarosamente desfrutarmos das imagens. António Lopes

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