É a festa da fotografia, meu!

© ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Fotografia de António Pedro Ferreira, da série Belcanto

Confesso uma certa nostalgia dos Encontros de Fotografia em Coimbra, realizados durante mais de duas décadas e que atraíam à cidade uma multidão que tinha a fotografia por paixão. Esse período foi tão marcante que ainda hoje, passadas quase duas décadas sobre o seu fim, a cidade tem um carinho especial pela fotografia e o Centro de Artes Visuais continua uma intensa atividade enquanto herdeiro dos Encontros.

Mas Coimbra vive de outras formas a fotografia. Exemplo disso é o interesse que está a despertar a edição deste ano do Festival Estação Imagem. Até 21 de junho o Festival leva a Coimbra, pelo segundo ano consecutivo, alguns nomes do fotojornalismo português e internacional, no ano em que o Estação Imagem assinala o seu 10º aniversário, e tendo a Câmara Municipal como entidade co-organizadora. A cidade enche-se de jovens e menos jovens que nas exposições apresentadas buscam inspiração. E se nos mostrarmos admirados, decerto nos respondem “é a festa da fotografia, meu!”

O Estação Imagem começou em Mora, em 2010, passou por Viana do Castelo e agora tem lugar em Coimbra. Ocupa vários espaços da cidade onde podemos visitar nove exposições, assistir a projecções de documentários e conferências.  Distribuídas pelos espaços Sala Cidade, Convento São Francisco, Casa Municipal da Cultura, Mosteiro de Santa Clara-a-Velha,  Centro Cultural Penedo da Saudade e Teatro Académico Gil Vicente, as exposições vão ter visitas guiadas pelos autores entre os dias 25 e 27 de Abril. Será também no próximo sábado que serão anunciados os vencedores da edição deste ano do Prémio Estação Imagem.

De entre as várias exposições, há várias que merecem a nossa atenção e visita. António Pedro Ferreira, fotojornalista do Expresso, apresenta Belcanto, um trabalho que é mostrado no Teatro Gil Vicente, mesmo no Centro da cidade. Belcanto dá atenção aos bastidores do Teatro Nacional de São Carlos, aos pequenos objetos e cenários, que se transcendem a si próprios para nos sugerirem ideias e sentimentos, como se exige a qualquer teatro e neste caso particular a um teatro de ópera.

Resistir ao Idai, presente no Centro Cultural Penedo da Saudade, é uma exposição que tem como tema a recente tempestade que assolou Moçambique, com imagens de António Silva, Daniel Rocha, Luís Barra, Leonel de Castro, André Catueira, Miguel Lopes, Tiago Petinga, Tiago Miranda e João Porfírio. Revela-nos não apenas um acontecimento recente, mas igualmente as tarefas, as opções e decisões de um fotojornalista perante o drama vivido.

Paulo Pimenta, fotojornalista do Público, inspirou-se no Grupo de Teatro da Crinabel para construir o seu trabalho Crinabel: Dentro de Fora de Palco, apresentado também no Centro Cultural Penedo da Saudade. É uma exposição que não se restringe à representação teatral, mas que nos leva a partilhar momentos pessoais com os seus protagonistas, para além de nos lembrar o meritório trabalho desenvolvido pela Crinabel junto de jovens portadores de deficiência mental.

Também a merecer a nossa visita está Colômbia, o trabalho da fotojornalista Catalina Martin-Chico que retrata a vida das mulheres guerrilheiras das FARC naquele país da América Latina. Este trabalho, segundo classificado no concurso World Press Photo 2019 na categoria “Assuntos Contemporâneos”, é um momento de reflexão não apenas sobre um dos mais sangrentos conflitos da América Latina, mas também sobre quem passou a vida na selva e que agora, em tempo de paz, se tenta adaptar à vida em sociedade.

© GEORGE STEINMETZ

Fotografia George Steinmtz, da série Big Food

Big Food é outra das exposições apresentadas cujo autor, George Steinmtz aborda a questão da produção agrícola massificada, por vezes pondo em causa o equilíbrio ecológico do planeta. Apresentada na Sala da Cidade, Big Food leva-nos a um mundo pouco conhecido e que por vezes ignoramos mesmo, das grandes extensões de estufas no sul de Espanha, contribuindo para alguns problemas sociais e ecológicos ali vividos,.

Merece-nos ainda referencia Iémen, uma guerra escondida de Véronique de Viguerie, apresentado na Galeria Pedro Olayo Filho, no Convento de S. Francisco, um trabalho que nos deveria fazer pensar na fome e nos conflitos sociais e militares que nem sempre ocupam as primeiras páginas dos jornais ou o alinhamento dos telejornais.

É nestas exposições, momentos de reconhecimento aos fotojornalistas que não poucas vezes arriscam a vida no meio de uma guerra ou de uma qualquer manifestação e de quem nos esquecemos quando calmamente folheamos um jornal à mesa de um café, que cabe a homenagem que o Festival Estação Imagem faz a Desmond Boylan, fotógrafo que trabalhou para a Reuters e para Associated Press e falecido em Havana no passado mês de dezembro. É mais uma das exposições apresentadas no Centro Cultural do Penedo da Saudade e que aconselhamos a não perder. António Lopes

RNPS IMAGES OF THE YEAR 2007 -

Fotografia Desmond Boylan
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