Na terra de Jacó, de Bruno Saavedra

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Na Galeria da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, em Lisboa, encontra-se patente ao público até 26 de Abril próximo, a exposição Na Terra de Jacó do fotógrafo brasileiro Bruno Saavedra (Itamaraju, Bahia, Brasil, 1987), sob a curadoria de Sonia Figueiredo.

Bruno Saavedra, alter ego que Wilson Neto criou para si próprio enquanto artista visual, assume aqui o papel de narrador da sua verdadeira identidade, revelando-nos de uma forma sensível e intimista, as origens do seu outro eu, que dá pelo nome de Wilson Neto, em Piragi, uma pequena cidade do interior da Bahia no nordeste brasileiro, onde nasceu e cresceu.

O fotógrafo, Bruno, vai-nos desfiando por imagens as raízes de Wilson, o homem para além do artista, retratando pessoas da sua terra natal que lhe são próximas, familiares e amigos que de alguma maneira o marcaram nesse seu início de vida ou que simbolizam e evocam essa mesma naturalidade. Um profundo respeito e carinho pelos seus conterrâneos são sentimentos que se desprendem destes registos de Saavedra, em que os interiores e os exteriores captados são inerentes aos rostos dos fotografados, integrando-os no seu meio ambiente com uma delicadeza e frontalidade que nos comove. Pequenos pormenores de espaços, alguns animais e paisagens são também figuras principais neste projecto, dando corpo a uma narrativa que nos envolve com o seu forte carácter pessoal e onde a nostalgia, a par com a exaltação, se fazem notar em cada registo.

O título deste trabalho faz uma menção algo directa a Jacó Silva, pai de Wilson, presente numa das imagens desta mostra mas pode igualmente referir-se à figura bíblica Jacó (ou Jacob), cujo regresso à terra dos pais após ausência prolongada constitui uma semelhança com o percurso efectuado por Wilson e do qual terá resultado este conjunto de documentos. A residir no estrangeiro desde cedo, a saudade e o apego à sua terra de origem são elementos bem vincados nos seus enquadramentos, onde memórias e sentimentos revisitados durante dois anos são transpostos para as fotografias aqui presentes.

O carácter íntimo com que Saavedra nos transmite a realidade de Wilson salienta-se, desde logo, na atmosfera da galeria onde vamos descobrindo os laços da sua infância e juventude, em recantos adequadamente iluminados para esse efeito. O fotógrafo utiliza algumas imagens de grande dimensão que dialogam harmoniosamente com outras mais pequenas, estabelecendo uma suave cadência aos olhos do observador. Por vezes, os espaços podem parecer um pouco pequenos para a leitura de determinados registos mas Saavedra serve-se desta situação com o intuito de fomentar uma maior proximidade com o público, de modo a acentuar a ideia de intimidade.

A cor, intensamente apelativa e capaz de gerar emoções, reveste-se de grande importância em toda a obra deste fotógrafo, aqui novamente comprovada. A abordagem estética característica de Saavedra faz uso de tons vigorosos em composições cuidadas, capazes de competir com o motivo principal em matéria de protagonismo.

A folha de sala, singular e bem apresentada, mostra-se adequada para o fim a que se destina, embora não seja bilingue. A exposição faz-se acompanhar igualmente por uma publicação em livro, constituindo um interessante e aliciante complemento.

Bruno Saavedra e Wilson Neto, dois nomes que se acabam misturando numa mesma personalidade, oferecem-nos um documentário ímpar de um reencontro com um pequeno povoado, justificando totalmente uma visita a esta galeria, localizada na Rua da Madalena 147. Apressem-se! Margarida Neves

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