Não vejo um boi, de Flávio Andrade e Cristina H. Melo

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Na Casa da Avenida Galeria, em Setúbal, está patente ao público até ao próximo dia 31 de Março, a exposição de fotografia Não vejo um boi de Flávio Andrade (Moita, 1964) e Cristina H. Melo (Lisboa, 1962).

Dois conjuntos de imagens distintos, ambos com características próprias mas comunicantes entre si, são o resultado da análise efectuada pelo par de fotógrafos à frase que dá título a esta mostra, Não vejo um boi, (expressão que evidencia uma carência de visão ou de percepção), dando corpo ao projeto fotográfico aqui apresentado. Flávio Andrade opta por questionar o conceito de ver ou não ver, seja através do olho humano, seja através de uma fotografia, criando “narrativas em múltiplas partes”. Cristina H. Melo baseia-se numa busca pessoal de descoberta para acrescentar a essa realidade algo ficcionado, dando origem à “narrativa de um viajante”, alguém que olha para uma estrada, seja ela palpável ou imaginária, concreta ou indefinida e segue em frente.

Flávio Andrade apresenta-nos instantes diversos, captando pessoas, pormenores de um corpo, paisagens ou detalhes. Um rosto voltado para uma parede, projectando-lhe uma sombra ou uma mulher usando óculos de lentes grossas cujo olhar parece semicerrado, remetem-nos, necessariamente, para o tema ver/não ver de uma forma imediata. O fotógrafo explora esta questão numa perspectiva menos directa fazendo uso de ambientes nocturnos, cujos fundos negros e enquadramentos escolhidos retiram o contexto aos sujeitos, toldando a nossa compreensão em relação ao que nos é dado a observar. Outros casos há em que situações diurnas, cuja informação em primeiro plano e ângulo adoptado nos induzem a fazer uma leitura diferente daquela que a totalidade da cena poderia sugerir, provocam hesitações ou surpresa.

O que vemos será o que queremos ver? Qual a relação disto com as fotografias? Como se pode ver fotograficamente o que não se vê com o olho? Andrade chama-nos a atenção para estas questões com subtileza, através de uma série de imagens onde essa abordagem não é linear, permitindo diferentes possibilidades de interpretação mas onde se destaca a necessidade de nos focarmos nesses registos, não como testemunhos de meros acontecimentos ou realidades mas sim na importância de como os vemos e sentimos. A diferença de dimensões entre as várias imagens e a distância a que as observamos estabelecem, por si só, um interessante jogo à volta do tema deste projecto.

O fotógrafo evoca Manoel de Barros com a frase “melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário”, deixando, em cada um de nós, um incentivo de auto-conhecimento por meio de uma aproximação fragmentada e enigmática a algo que nos é exterior, moldando-nos o olhar e desafiando-nos para pequenas descobertas.

Cristina H. Melo utiliza registos de paisagens, feitos em viagens de carácter particular que realizou no passado, aos quais sobrepõe imagens de uma figura humana que funciona como uma personagem fictícia na sua narrativa. A artista visual coloca-a com a face ou os olhos ocultos, de costas para a paisagem ou olhando noutra direção, numa atitude que nega a apreciação ou consciencialização desse mesmo espaço envolvente, desvinculando-a do ambiente que a rodeia e fomentando um universo ambíguo onde o acto de ver está omisso ou dissimulado.

Complementando o seu trabalho visual com a citação de Paul Gauguin “je ferme les yeux pour voir”, (eu fecho os olhos para ver), H. Melo acentua, quiçá, a ideia de alguém que empreende uma viagem interior em busca do conhecimento de si próprio, que faz uma auto-reflexão fechando-se em si mesmo para o exterior, lembrando-nos que na vida somos confrontados, amiúde, com as escolhas que fazemos no nosso percurso, reclamando, esses momentos, uma introspecção da nossa parte.

O diálogo que H. Melo estabelece com o observador leva-nos a outras conjecturas, sinal de uma obra intensa e subjectiva. O desconhecimento do que o destino nos reserva, assumindo-nos como viajantes ao sabor de algo maior, que não controlamos, pode ser um facto aqui presente. Ou, tão só se trate da procura de algo, invisível ao nosso olhar mas que vamos clarificando ao longo do tempo, uma mudança de rumo que se revela necessária, numa possível alusão às vivências experimentadas pela fotógrafa.

Os trabalhos de Andrade e H. Melo não se fecham em si mesmos, estabelecendo pontos de vista que estabelecem diálogo um com o outro, unidos por um sentimento comum de acentuar que aquilo que está registado numa fotografia pode ser assimilado de maneira diferente pelos nossos olhos, consoante o que quisermos ver. Aqui, neste projecto artístico cuja mensagem não pretende ser de fácil ou rápida observação, as respostas não surgem idênticas ou imediatas, privilegiando-se a contemplação e a ponderação.

O espaço expositivo mostra-se adequado e livre de interferências, permitindo uma boa leitura, com uma folha de sala elucidativa mas que peca por não ser bilingue. Andrade adopta um ritmo marcante com imagens de diferentes dimensões dispostas numa malha dispersa e cativante, por oposição a H. Melo que escolhe um ritmo de exposição mais ordenado, com fotografias de igual dimensão dispostas de uma forma mais clássica mas que se revela eficaz e oportuno para o resultado global.

A Casa da Avenida Galeria, situa-se na Av. Luísa Todi 286 a 292 e tem horário de funcionamento de quarta a segunda-feira das 9h às 20h. Flávio Andrade e Cristina H. Melo provam-nos que existem múltiplas maneiras de ver, justificando em pleno uma visita a este local. Margarida Neves

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