A vida é feita de Likes, de Pauliana Valente Pimentel

001-Likes-20190302

Fotografia Margarida Neves

A Pequena Galeria, em Lisboa, apresenta ao público até 30 de Março próximo, A Vida é feita de Likes, exposição individual de fotografia de Pauliana Valente Pimentel (Lisboa, 1975).

Imagens de grande formato, foto-reportagens e projectos fotográficos de cariz social são características de um trajecto artístico já bem implantado entre nós por parte de Pauliana Valente Pimentel. O que agora nos é proposto observar afasta-se destes conceitos, transportando-nos para o universo pessoal e privado da artista visual, revelando-nos momentos e pessoas que fazem parte do círculo mais próximo dos seus relacionamentos.

Valendo-se de um vasto conjunto de registos, publicados na sua conta da rede social Instagram, restrita a um pequeno número de seguidores, Pimentel convida-nos a desfolhar fragmentos da sua vida ocorridos entre 2011 e 2017, através dos 77 documentos escolhidos para figurar nesta mostra. Este diário traçado pela fotógrafa e agora tornado acessível a todos, conduz-nos por entre os seus familiares e amigos, faz-nos deambular por lugares que lhe são significativos, mostra-nos pausas das suas sessões de trabalho e envolve-nos com uma proximidade intrínseca que se desprende igualmente dos vários projetos que tem vindo a executar. A busca do âmago de cada vivência que absorve é-lhe inerente e essencial para o olhar profundo e sensível que lhe conhecemos.

Pimentel capta um quotidiano onde o afecto e a beleza estão sempre presentes, quer nas figuras humanas que enquadra de modo a salientar o espaço ao seu redor, quer nas paisagens que documenta, de uma maneira íntima e peculiar. Experimentamos uma sensação de presença nesses instantes, uma convivência que nos abraça, uma ligação com esses lugares, revemo-nos nessas ocasiões, ilusão que nos confunde quando questionamos aquilo que vemos. A fotógrafa deixa em aberto este seu álbum de família não colocando qualquer legenda, numeração ou data nas imagens, feitas através do seu telemóvel, facto este plenamente assumido a par com a utilização do Instagram.

Ao fazer uso de dimensões reduzidas, sem moldura e alternando entre os formatos 12x12cm e 20x20cm de modo a não comprometer a definição dos seus documentos visuais, Pimentel estabelece um ritmo expositivo aliciante, muito bem adequado ao local onde nos encontramos, cuja folha de sala, clara e bilingue, atinge o objectivo para o qual foi concebida. Segundo as palavras da artista, a organização destes documentos tem por base a criação de uma ou mais narrativas sobre a sua vida, agrupados segundo aspectos estéticos, cores, formas, linhas e enquadramentos.

As fotografias, escolhidas independentemente da ordem cronológica, do número de likes que alcançaram ou dos comentários obtidos na plataforma social, estimulam uma interessante reflexão sobre a democratização da imagem, fomentada pelos dispositivos móveis que temos ao nosso dispor e pela facilidade e imediatismo da sua divulgação através das redes sociais. Com efeito, Pimentel mostra-nos que a utilização de ferramentas tornadas banais nos dias de hoje pode contribuir para algo único, enriquecedor e válido como projecto artístico, desencadeando emoções e permanecendo na nossa memória, contrariando a ideia de massificação, fragilidade e inutilidade de conteúdos dessas mesmas plataformas digitais, defendida por alguns. A chave para o sucesso passa por sermos fiéis a nós próprios, garantindo a nossa individualidade enquanto seres humanos, tarefa que se alcança, tal como Pimentel o afirma, com imagens que têm de ser vividas, onde a presença do fotógrafo tem de ser sentida.

A expressão A Vida é feita de Likes, muito comum atualmente, põe a nú a conduta da maioria das pessoas guiando-se pelo número de likes que uma determinada fotografia tem quando publicada nas redes sociais. Ao adotar essa frase como título do seu trabalho, a artista evidencia essa circunstância de uma maneira irónica, rejeitando-a no momento da escolha dos seus registos, ao mesmo tempo que tece uma crítica velada ao consumismo de imagens, descuidadas e vazias de assunto, a que assistimos hoje em dia.

Pauliana Valente Pimentel assegura-nos que a profissão de fotógrafo, embora ameaçada pela simplicidade com que qualquer pessoa faz uma suposta fotografia, está viva e marca a diferença, num salutar diálogo com o observador, justificando totalmente uma visita a esta exposição. Margarida Neves

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Crítica. ligação permanente.