O estaleiro, de Roberto Santandreu

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Fotografia Margarida Neves

Na Casa da América Latina, em Lisboa, encontra-se patente ao público, até 1 de Março próximo, a exposição individual de fotografia O estaleiro do chileno Roberto Santandreu (Milão, 1948), sob a curadoria de Rui A. Pereira.

Este trabalho de Santandreu, resultante de uma viagem a Macau realizada em 2011, documenta os estaleiros navais abandonados da vila de Lai Chi Vun, na ilha de Coloane, considerados um dos maiores legados do património industrial da construção naval da região do sul da China. O fotógrafo partilha com o observador a sua interpretação e as sensações aí vivenciadas, fruto do ambiente de desolação encontrado, das marcas da presença humana agora inexistente e de pequenas descobertas, cujas interrogações suscitadas lhe desencadearam, no regresso a casa, um olhar mais profundo sobre o tema.

As imagens de Santandreu revelam-nos pormenores de interiores, grandes planos de alguns objectos e vistas dos espaços exteriores de um Oriente peculiar, numa visão sentida, transmitindo sentimentos díspares, quer seja de amargura e sofrimento, de dúvida e inquietação ou até mesmo de surpresa e fascínio pelo passado cultural de um povo.

A nossa consciência é aqui despertada pela revelação da decadência e perda de algo, a extinção de uma época que não sobreviveu à mudança dos tempos. Espaços que se abrem sobre o exterior evocando, quiçá, prisões sem portas, deixam-nos apreensivos quanto às possíveis realidades ali vividas. Fragmentos da história da humanidade são-nos relatados, originando interrogações e incertezas numa busca pelo que nos é desconhecido, perturbando-nos ao ponto de provocar admiração e respeito pelos nossos semelhantes, cujas existências são testemunhadas pela perspectiva do fotógrafo.

O inesperado de um nome num caderno semi-destruído, encontrado nos estaleiros, conduz Santandreu numa demanda pelos caminhos percorridos por esse indivíduo, propiciando o mote para um interessante e criativo encaixe de uma obra literária neste projecto fotográfico.

Numa homenagem ao escritor uruguaio Juan Carlos Onetti e unindo a literatura à fotografia, Santandreu associa pequenos textos extraídos do livro El astillero, publicado em 1961, aos seus registos visuais. Deste modo, ao fundir a realidade encontrada com um universo imaginário, o fotógrafo propõe-nos uma reflexão mais abrangente, colando identidades e locais, como que afirmando “o reconhecimento de uma existência real, captada fotograficamente mas que viaja por uma unidade ficcional, reinventada através do real, que se vai redescobrindo e recriando”, tal como o denota Rui A. Pereira na folha de sala.

A abordagem estética deste trabalho de Roberto Santandreu centra-se na escolha do preto e branco para a apresentação das imagens, uma característica que lhe é habitual, em documentos contrastantes e na utilização de ângulos e enquadramentos compostos por linhas diagonais fortes e marcantes.

O espaço expositivo dispõe de uma iluminação adequada e encontra-se livre de interferências, permitindo que se faça uma boa leitura. O ritmo é clássico, no geral, com prevalência de painéis fotográficos na vertical, quebrado por alguns registos na horizontal. A folha de sala, clara e abrangente, cumpre as funções que lhe são atribuídas mas peca por não ser bilingue.

A Casa da América Latina, situada na Av. da Índia 110, tem horário de funcionamento de segunda a sexta-feira das 9h30 às 13h e das 14h30 às 18h. O olhar de Roberto Santandreu, poético e enriquecedor, justifica plenamente uma visita a esta mostra. Margarida Neves

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