Time out of time, de António Lopes

Captura de tela 2018-11-16 às 16.53.13

Na Caparica, no Convento dos Capuchos, está patente até 26 de Janeiro próximo, TIME out of Time de António Lopes (Lisboa, 1959), exposição individual integrada no Mês da Fotografia ImaginArte Almada 2018.

Considerações à volta do tempo e a sua representação, assim se pode sintetizar o conceito inerente às imagens do fotógrafo português reunidas nesta mostra. Definido como uma série ininterrupta e eterna de instantes, o tempo é um tema analisado por Lopes sob diversas perspectivas que se refletem nos seus documentos visuais de uma forma tanto directa e expressiva quanto enigmática e apelativa.

O registo fotográfico, captando um instante desse tempo, representa uma marca física de algo que se tornou passado ao ser agora observado, constituindo por si só uma representação do tempo.

Nestes documentos de variados espaços exteriores e interiores, somos levados para outras épocas através de marcas evidentes, quer seja através de um objecto, de um elemento decorativo ou de visíveis sinais de deterioração. Um tempo diferente do actual surge-nos de uma maneira menos óbvia, insinuando-se pelo olhar de Lopes ao captar locais ao abandono, estruturas cuja função foi desactivada ou instalações encerradas, denunciando algo que teve o seu período áureo mas que não sobrevive em funcionamento nos dias de hoje.

A ausência de indivíduos, nessa atmosfera que se desenquadra do que nos é contemporâneo, afirma-se como uma constante, traduzindo-se em solidão e afastamento, de modo a potenciar algo que interpretamos como fora deste tempo. Dúvidas e interrogações são-nos incutidas, pela falta de qualquer actividade humana que conceda sentido à existência desses espaços, descontextualizando-os do tempo presente mas gerando hesitação. O silêncio prende-se, assim, em cada enquadramento, “quase como se apenas ouvíssemos o vento ou a ausência de quaisquer ruídos” e a incerteza transparece ao pretendermos situar cronologicamente ou até espacialmente aquilo que nos é dado a observar.

Captura de tela 2018-11-16 às 16.52.38

Fotografia António Lopes, da série Time out of time

A natureza do que nos é mostrado e o ambiente peculiar destas fotografias, convocam-nos, quiçá, para alguns universos cinematográficos que se lhes assemelham, numa tentativa de preenchermos os espaços documentados com personagens que se nos afigurem apropriadas, colmatando assim as indefinições temporais e espaciais suscitadas.

Lopes revela modernidade, ao distanciar-se das regras clássicas da composição, colocando neste projecto o peso visual das suas imagens no centro do enquadramento, apresentando uma naturalidade de olhar que choca com o assumido formalismo e optando pelo rigor técnico de consequências estéticas. Esta componente estética assume a sua singularidade pela escolha de determinada luminosidade numa paisagem ou objecto e pelo registo de uma certa forma da natureza, ambas irrepetíveis no tempo, refletindo a essência da fotografia enquanto suporte de representação de um momento único, que ocorreu anteriormente e que é transportado para o momento actual.

A folha de sala, clara e bastante abrangente, peca apenas por não ser bilingue. O espaço físico da exposição, livre de qualquer interferência e com iluminação adequada, permite uma boa leitura das obras. A apresentação destes documentos, de dimensões semelhantes e limitados por molduras, segue um ritmo próximo do clássico, bem adequado para o efeito.

A ambiguidade que se desprende deste trabalho de António Lopes faz-nos hesitar diante do que é visível, surpreendendo-nos e confrontando a nossa percepção dos espaços e dos tempos, justificando inteiramente uma visita a esta exposição. Margarida Neves

 

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