Os dias de mármore, de Roberto Santandreu

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Fotografia Margarida Neves

No passado dia 23 de Outubro foi inaugurada na Galiarte, em Lisboa, a exposição Os dias de mármore do fotógrafo chileno Roberto Santandreu (Milão, 1948), prolongando-se, neste espaço artístico, até 21 de Novembro próximo.

O conjunto de imagens a preto e branco, que aqui se mostram ao público, tem por base o olhar de Santandreu sobre as pedras que constituem um testemunho da história da Grécia Antiga, em especial o mármore proveniente das canteiras da região da Ática. Esta matéria inerte, utilizada e transformada pelos homens desse período longínquo dando origem a numerosas obras de arte, quer seja ao nível da estatuária quer seja em templos ou outras edificações das suas cidades, serve novamente de mote ao fotógrafo, após os trabalhos As pedras e o homem e Diálogos de pedra.

Fruto de uma recente viagem à Grécia, este projecto de Santandreu marca-nos, antes de mais, pelo virtuosismo técnico e estético expresso nos documentos expostos no que respeita à definição, riqueza de tonalidades e singularidade proporcionada pelos enquadramentos escolhidos. As estátuas dos heróis de outrora são-nos devolvidas surpreendentemente sob a forma de retratos plenos de vida, num vigoroso jogo de luz e sombras que nos cria a ilusão de estarmos perante a sua presença. Nos templos e anfiteatros desses tempos remotos encontramos agora figuras humanas da actualidade num diálogo permanente com o passado que lhes foi legado, capazes de nos arrancar um sorriso pela visão, por vezes desconcertante, do fotógrafo. Os espaços são captados pelo artista com um ângulo peculiar, evocando momentos neles vividos ou salientando detalhes, não nos deixando indiferentes e incitando-nos a uma contemplação mais profunda.

Roberto Santandreu revela-nos pormenores ou planos abertos da cultura grega fazendo uso de diagonais fortes e de uma escala de cinzentos abrangente e apelativa. A cada instante captado associa, como é seu hábito, um pequeno apontamento sobre a natureza da imagem, estimulando o pensamento do observador para uma reflexão, quiçá mais próxima da própria vivência do fotógrafo. A folha de sala, bem adequada e devidamente informativa, completa esses apontamentos elucidando-nos sobre o conceito subjacente à obra aqui exposta, entre outros detalhes e notas biográficas.

Os registos fotográficos de Santandreu demonstram uma visão fresca e penetrante de um passado distante, não o fechando sobre si próprio mas transportando-o para os dias de hoje e colocando em evidência uma memória histórica de cariz cultural. A poesia de Homero, a personalidade de Péricles, o reinado de Alexandre ou o respeito do império romano pela cultura dos povos subjugados são símbolos dessa memória, cuja influência nos tempos modernos é reclamada por Roberto Santandreu. Segundo o seu ponto de vista, os valores e ideais partilhados por essa memória são merecedores de uma continuidade no presente, algo que não deve ser menosprezado, tal como o ilustra no seu desejo de “expressar que o ciclo obscuro e, por vezes, absurdo do que presenciamos nos dias de hoje poderá ser alterado se permitirmos que algumas dessas pedras portadoras da memória histórica estejam presentes na actualidade”.

O espaço expositivo, livre de interferências e com iluminação suficiente, permite uma boa leitura das fotografias, apresentadas num ritmo clássico, cuja monotonia é quebrada pelos percursos criados.

A Galiarte, situada na Calçada Marquês de Abrantes 72, tem horário de funcionamento de terça a domingo das 15 às 19 horas. Aqui, pelo toque subtil de Roberto Santandreu, revemos testemunhos e enriquecemos o nosso caminho enquanto seres humanos. Margarida Neves

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