Um Realismo Necessário, de José Pedro Cortes

Captura de tela 2018-10-12 às 15.41.26

Fotografia de Margarida Neves, exposição de José Pedro Cortes, Lisboa

No Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, em Lisboa, encontra-se patente ao público, até 28 de Outubro próximo, a exposição individual de fotografia Um Realismo Necessário do fotógrafo português José Pedro Cortes (Porto, 1976).

Sob a curadoria de Nuno Crespo, reúne-se neste espaço um conjunto de imagens realizadas entre 2005 e 2018, centradas no universo do quotidiano, onde o corpo humano se encontra maioritariamente presente e com base no qual o fotógrafo interpreta o mundo onde vive e aprofunda o seu conhecimento.

Rosto, mãos, ombros, outros tantos fragmentos de um corpo ou a sua totalidade fazem parte da leitura que José Pedro Cortes realiza de um tempo que é o atual, de uma realidade vivida e sentida diariamente. Deparamo-nos com beleza, serenidade e intimidade em documentos nos quais se representa a singularidade desse corpo humano, retratando-o numa aparente relação de proximidade com o observador embora sentimentos de incerteza e dúvida nos possam invadir sobre o contexto daquilo que é captado.

O fotógrafo não se cinge apenas a esse corpo e aos seus detalhes. Integra-lhe objetos decorativos ou individualiza outros em planos fechados. Complexidade, fragilidade e degradação destacam-se em algumas perspectivas de ambientes urbanos e arquiteturas, enquanto que atmosferas mais tranquilas e descontraídas figuram em outras tantas paisagens de lugares arredados do bulício das grandes cidades. Em todos eles a presença humana é uma constante, seja directa ou indiretamente visível.

Os enquadramentos que José Pedro Cortes faz de uma realidade que se pode considerar banal e corriqueira, estimulam uma reflexão voluntária da nossa parte numa tentativa para decifrar cada momento visual. O carácter de abstração que os trabalhos fotográficos exibem convidam-nos a demorar o nosso olhar sobre cada um dos registos e a afastarmo-nos da trivialidade das situações que lhes deram origem, prendendo-nos ao enigma das imagens, fruto do pensamento do artista sobre aquilo que o rodeia.

Alguns dos documentos escolhidos para esta mostra têm como base vários projetos que o artista tem vindo a executar e a expor ao longo do seu percurso, sentindo agora e citando as suas palavras, “a necessidade de olhar para o meu arquivo e compreendê-lo, não como uma sequência de imagens acopladas a projetos, geografias, mas como um ato contínuo”. O resultado traduz-se numa coleção de instantes e paisagens díspares, unificados pela centralidade do corpo e do seu reflexo e interação com o meio envolvente.

Cortes joga prioritariamente com a cor nas suas imagens mas não descura o uso do preto e branco em alguns registos, todos eles apresentados com um ritmo aliciante, sem quebras, numa alternância entre fotografias de grandes dimensões e outras de tamanho mais reduzido, num espaço expositivo bem adequado para esse efeito.

Recorde-se que o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado se situa na Rua Serpa Pinto 4 / Rua Capelo 13, com horário de funcionamento de terça a domingo das 10 às 18 horas. Aqui comprova-se, pelo olhar de José Pedro Cortes, a vitalidade e qualidade da fotografia portuguesa, motivo assaz suficiente para uma visita a este espaço. Margarida Neves

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