Robert Mapplethorpe: pictures

Captura de tela 2018-09-14 às 15.32.54

Fotografia Robert Mapplethorpe, Auto Retrato, 1983, Robert Mapplethorpe Foundation

No Porto, na Fundação de Serralves está patente Robert Mapplethorpe: pictures. Depois das polémicas e mediáticas discussões sobre se houve ou não censura ou se há salas mais ou menos condicionadas, que aqui já abordámos e ainda não totalmente esclarecidas, começa a assentar a poeira e a sobressaírem outros aspetos se calhar bem mais preocupantes.

Comecemos pelos dias de entrada gratuíta. Neste caso tivemos azar e fomos visitar a exposição no primeiro domingo do mês e no período da manhã. Em exposições mediatizadas como foi esta, este período deveria ser alargado de forma a evitar concentrações excessivas. Já não falo das filas para entrar, mas do comportamento do público.

Avancemos então para o público. Numa exposição como esta, que motivou a curiosidade e onde algumas pessoas perguntavam ao seu acompanhante: “então onde é que estão as fotografias polémicas?” – como se a exposição se resumisse a isso, frequentemente vimos as pessoas a seguirem em fila, umas atrás das outras, de fotografia em fotografia. Sem parar, olhando, mas sem sentir, sem ver. Parar para apreciar as imagens era tarefa difícil e logo acontecia alguns empurrarem quem estava à sua frente. São maus hábitos do público, seja ele do Porto, de Lisboa ou de qualquer sítio. É sinal que visitamos as exposições de forma ligeira e apenas como mais um momento colecionável, o que é extensível a museus e a outros espaços.

Ainda quanto ao público, mas também quanto à organização, uma nota muito negativa para a parte final da exposição. Muitos aproveitando a “borla” do primeiro domingo tentavam ver outra exposição apresentada numa sala adjacente. Como as entradas eram limitadas, auto-organizou-se uma fila num corredor perante o olhar passivo dos seguranças. E assim, a parte final da exposição de Maplethorpe, talvez cerca de duas dezenas de fotografias não podiam ser vistas porque praticamente encostada às imagens havia uma enorme fila das pessoas. Ou Serralves não liga a essas questões, ou o público que já viu três quartos da exposição acha que já viu tudo e pior, que os outros não merecem ver. Podiam os seguranças, a própria Fundação ter aqui um papel pedagógico. Afinal, esse papel não se resume a iniciativas no Parque ou a visitas guiadas.

Da exposição em si ressalta o papel que Mapplethorpe teve na História da Fotografia do século XX. Polémico é certo, irreverente também, mas igualmente provocador, dotado de uma sensibilidade única em imagens excecionalmente bem iluminadas e bem impressas. Os paralelos com a escultura clássica são evidentes nas poses, nas noções de proporção, de força ou nos pontos de vista, numa comparação entre os corpos de hoje e a escultura do passado, como o são a beleza das suas flores, que assumem claramente uma conotação sexual.

Nesta exposição que reúnem-se retratos, nús ou naturezas mortas em fotografias, colagens ou polaroids. No caso específico dos retratos destaque para o retrato direto, fotografando de frente os seus modelos, trazendo à fotografia uma visão que cortava com os cânones tradicionais e que só se generalizaria alguns anos depois. Eram opções que não pretendiam constituir-se como verdade objetiva, mas antes como uma provocação, como alguém que nos olha nos olhos.

Em Mapplethorpe toda a iluminação é pensada e começamos por o ver na inspiração que busca na escultura clássica, mas também na colocação das sombras nos fundos, ou na gradação de luz que obtem nos objetos. A este construtor de luz junta-se uma boa impressão que só por si é uma parte fundamental do todo que é a fotografia e que frequentemente é esquecida.

Chegados à “sala dos murmúrios” (a das imagens polémicas) constatamos logo que foi mais o barulho do que a gravidade da questão. Em primeiro lugar, e por princípio, somos contra toda a forma de sonegação ou dissimulação de uma obra artística por razões de ordem moral. Mas até compreendemos que algumas das imagens possam estar mais resguardadas, cabendo aos pais a decisão de puderem ou não serem vistas por crianças. Mas ali não estão as imagens mais chocantes e violentas da obra de Mapplethorpe e o que ali está pode ser visto em qualquer livro sobre o autor numa qualquer livraria ou até noutros fotógrafos de finais do século XIX e inícios do século XX. A novidade de Mapplethorpe não é o voyeurismo da transição do século XIX para o XX, mas antes uma abordagem formal, provocadoramente formal. É igualmente preferível ver Mapplethorpe como um fotografo que ultrapassou fronteiras impostas à arte no período conservador pós-Segunda Guerra Mundial e que se começaram a diluir nas décadas de sessenta e setenta. É preferível olhar para o artista e ver nele alguém muito consciente do poder da imagem e da noção de pecado, ou ainda de alguém que colocou nas suas fotografias as suas obsessões eróticas. Ou como consta no texto (não assinado) do desdobrável e atribuído a Susan Suntag “aquilo que ele procura (…) não é a verdade sobre algo, mas a versão mais forte da verdade sobre algo“. Era antes o fotógrafo que construía a sua verdade.

Acompanha a exposição um desdobrável bilingue esclarecedor nos pontos essenciais desta apresentação. A exposição, com curadoria de João Ribas e organizada conjuntamente entre a Fundação de Serralves e a Robert Mapplethorpe Foudation, estará patente ao público até 6 de janeiro de 2019. António Lopes

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Crítica. ligação permanente.