Braga – que se passa?

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Fotografia Alfredo Cunha, O tempo de Braga

Este ano os Encontros de Fotografia em Braga deixaram-me uma sensação estranha: exposições de grande qualidade a par com outras sofríveis ou de um nível quase académico. É pena.

No capítulo do que estava mal encontramos várias coisas com que nunca me tinha deparado em Braga. Um convento de S. Francisco Real que ninguém conhece a não ser por Igreja de S. Frutuoso que fica adjacente ao dito convento, que por estar em ruínas ninguém visita e ninguém conhece, um texto que só consegui em inglês (Museu da Imagem), um catálogo que só havia no Edifício do Castelo, o qual ainda pensámos adquirir na última exposição que visitasse, mas que fomos logo esclarecidos que só havia ali, horários que não coincidiam com o programa (Casa dos Crivos) e finalmente a falta de manutenção de algumas exposições (Edifício do Castelo). Houve nitidamente a preocupação em manter o mesmo número de exposições de edições anteriores, mas com muito menos condições. Junte-se o facto de haver um predomínio de pequenas histórias em detrimento de projetos fotográficos mais consistentes. O que não deixa de ser uma opção legítima mas que parece indiciar uma situação de Encontros low cost.

Começámos com O tempo de Braga de Alfredo Cunha e À sombra de Deus de José Bacelar. Na primeira une-as o sentido de fotografia de rua, de reportagem e de captação do imprevisto, a par de uma luz fantástica em algumas das imagens. Alfredo Cunha consegue captar os ícones da cidade, sejam uma mercearia, um café ou um imprevisto de rua. Não gostámos da excessiva variedade temática e irregularidade qualitativa e, principalmente, não gostámos de ver algumas das imagens “apertadas” naquelas molduras, cujo tipo se repete em várias exposições. Sei que é mais barato produzir exposições assim, mas o emolduramento faz parte dos projetos. Em À sombra de Deus não nos seduz uma impressão irregular e muito menos uma maior preocupação com a simetria das molduras verticais e horizontais do que com a história em si. Talvez uma outra escala, mais pequena, ajudasse a criar imagens mais intimistas e com mais força com este tema. De qualquer forma, o autor agarrou o tema quando nos lembra que em Braga “cidade dos Arcebispos (…) tudo acontece, sempre, à sombra de Deus”.

Tibães é uma desilusão. O ponto de partida é bom, mas a forma como foram selecionadas as imagens é desastrosa. Juntemos-lhe o facto de vermos cartazes da exposição soltos e amarrotados. Tibães, um dos locais mais nobres dos Encontros, este ano com apenas uma exposição, reposição de alguns trabalhos já vistos aqui e noutras paragens, mas principalmente com uma seleção e uma apresentação muito duvidosa. Há coisas que resultam, e há coisas que não resultam…

Mas há na edição dos Encontros realizada este ano também muito bons trabalhos. A exposição de Tamara Wassaf, Del Sentimento de no estar del todo, na Nova Galeria do Largo do Paço, bem executada tecnicamente, bem montada e com preocupação na apresentação. No mesmo local referência também para Gloria Oyarzabal com Woman go no’gree que nos faz refletir sobre as questões culturais e sobre o papel da fotografia enquanto documento ou como apresentação de uma realidade ficcionada.

Neste espaço podemos ver #nextluk de Ivan Silva. Uma proposta interessante sobre a massificação da autorepresentação na cultura popular contemporânea. Diz-nos o press-release, num texto de Vera Marmelo, que o fotógrafo “selecionou aleatoriamente uma conta de Facebook, apropriando-se das imagens de perfil do utilizador, constituídas exclusivamente por selfies e cujo número atingiu a centena no momento de finalização da recolha”. Propositadamente o autor recorre à cianotipia para conferir a estas imagens uma paragem no tempo quebrando a sua volatilidade. Tudo estaria bem até aqui, se não fosse “uma exposição interativa” com a participação do público. A falta de manutenção da exposição ou a inadequação dos suportes (fita adesiva dobrada) fazia com que algumas imagens estivessem caídas no chão (pelo menos três imagens no dia em que a visitámos), o que levava a que alguns visitantes mais cuidadosos e com mais respeito pelo trabalho do autor apanhassem as imagens e as encostassem à parede evitando que fossem pisadas. Aqui trata-se de respeito pelo autor, mas também pelo público.

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Fotografia Katrina Tsakiri, A Simple Place

O Edifício do Castelo concentra algumas das melhores exposições destes Encontros. É o caso de A Simple Place de Katerina Tsakiri com um conjunto de auto-retratos sobre as reencenações do indivíduo e do espaço, exposição que merecia uma outra escala de maior dimensão e de um espaço onde cada imagem pudesse ser sentida e comunicar por si. Referência também para Inner Self de Anna-Sophie Guillet que questiona as fronteiras do género. É a autora que nos diz que “na nossa sociedade, temos expetativas muito específicas sobre a dicotomia de género e os papéis que cada um deles deve adotar. No entanto, esta dicotomia não se trata de um ponto de vista exclusivo. Eu tento (a autora) questionar esta hipótese, criando retratos de homens e mulheres cujas identidades escapam às normas. Através destes retratos, eu tento mostrar que existem várias formas de viver as nossas vidas como seres humanos”. “(…) Inner self foi desenvolvido através de encontros ocasionais com jovens desconhecidos que visivelmente escapam ao rigoroso binário homem/mulher. Quer o efeito seja puramente estético ou existam hormonas reais em cena, todos eles de certa forma desfocam fortemente as linhas do género”. São imagens fortes, com olhares diretos, que geram proximidade de quem vê com quem é visto, como que existindo uma cumplicidade.

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Fotografia Tânia & Lazlo, Behind the visible

Destaque também pela positiva para Along the break de Roei Greenberg questionando o tempo na paisagem e para o trabalho Behind the visible de Tania & Lazlo, talvez um dos trabalhos mais interessantes destes Encontros. Assiste-se à exploração do universo da psique (Under the surface, Beyond the threshold), do inconsciente e do sonho e igualmente ao questionar do papel do Ser Humano nas relações com a natureza, os outros e consigo próprio. São imagens misteriosas, perturbadoras e até sombrias, que nos inquietam e que nos remetem para a estética do cinema. São ainda imagens com uma luz fantástica (Under the surface, Lost river, The wind of absence), de uma execução técnica cuidada, uma impressão irrepreensível, e que fazem desta exposição uma das quais vale a pena visitar os Encontros.

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Fotografia Yushi Li, My tinder boys

Também como uma das melhores exposições destes Encontros de Fotografia está My tinder boys de Yushi Li. Ao colocar alguns homens num espaço estereotipado feminino e doméstico – a cozinha, o autor confere-lhes uma vulnerabilidade que se vê nos gestos e nos rostos. São imagens onde o uso da cor reflete uma significativa maturidade estética e apresentadas na escala certa num trabalho que pretende questionar questões de beleza e do sexo.

Interessante é também o vídeo de Rebekka Friedli, Touching Myself, produzido em Portugal pelo fotografo João Tuna, e onde ressalta a delicadeza dos gestos. Por último, no Edifício do Castelo, o trabalho de Iris Hassid Segal com Kana – Tel Aviv – Nazareth, um projeto ainda em execução e que documenta o dia-a-dia de três jovens palestinianas que deixaram a proteção das comunidades familiares e conservadoras onde cresceram, para irem estudar na cidade de Tel Aviv. São fotografias com alma, com uma mensagem forte, com uma escala que se impõe, e que consegue captar as vivências dessas jovens e os seus dilemas sociais e culturais.

Na Casa dos Crivos está To name a mountain de Alfonso Almendros, uma exposição que reflete um trabalho mais comum ver em galeria, que deveria ser visto com muito pouca luz para gerar solidão e intimidade. Pelo contrário, a luz jorra do teto e das paredes, destruindo quase por completo o sentido do trabalho que é anunciado no texto de parede. Sem esquecer o trabalho de João Paulo Serafim, A invenção da Memória, presente no Museu Nogueira da Silva, interessante pelo olhar que nos trás e pelo trabalho que se imagina, mas onde nas paredes continuam as legendas dos quadros que ali estavam antes, visitámos The Object of my Gaze de Marcia Michael, apresentada no Museu da Imagem. Vale a pena ver esta exposição não pela componente sentimental que ela desperta, mas também pela proposta estética, pela apresentação e pela técnica.

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Fotografia Marcia Michael, The object of my Gaze

A autora diz-nos tudo quando afirma que “nesta nova série, The Object of My Gaze (2015-2017), onde existe uma necessidade de compreender não só o meu legado, como mas também os meus antepassados, eu questiono sobre a minha história matrilinear. Eu percebi que para recuperar uma pertença eu tinha que ir aos arquivos e procurar o que estava ausente, silenciado e escondido; Eu precisava de uma história para motivar a minha busca, e a minha mãe, que era o único arquivo no qual eu podia confiar, tornou-se no veículo através do qual eu iria descobrir e recuperar narrativas históricas (re-imaginadas)”. Acresce uma montagem que nos faz pensar relacionando-a com a intenção da artista e uma iluminação perfeita que reflete a compreensão da luz original concebida no momento da captação da imagem.

Por último também uma referencia para Viv(r)e La Vie de Ana Galan, na Biblioteca do Campus de Gualtar da Universidade do Minho, com fotografias de casais com paisagens rurais em fundo, numa homenagem às pessoas que celebram a vida. São imagens de grande sensibilidade e beleza estética num projeto ainda em execução e iniciado em 2010. António Lopes/Sandra Osório

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