Norman Parkinson: Sempre na Moda, em Cascais

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Fotografia António Lopes, exposição de Norman Parkinson, Cascais

No Centro Cultural de Cascais inaugurou a exposição retrospetiva Norman Parkinson: Sempre na Moda, que ficará patente ao público até janeiro de 2019.

É uma exposição bem montada (outra coisa não seria de esperar da Terra Esplêndida), pensada em termos cronológicos e onde se salienta o trabalho criativo de Norman Parkinson (Londres 1913 – Singapura 1990), mas também bem pensada em termos visuais e numa lógica de leitura complementar entre os vários blocos da exposição. Tudo se encaixa, numa sequência lógica e evolutiva, sem redundâncias e despertando sempre a curiosidade do visitante. Acresce ainda o carater informativo dos corpos de wall text presentes, que nos ajudam a contextualizar as imagens e permitem compreender a carreira deste fotógrafo. São imagens formais, onde o emolduramento e o pass-partout (com raras exceções) acentuam o rigor técnico mas onde, de forma desconcertante, espreita sempre a irreverência e até o humor.

A carreira de Norman Parkinson remonta aos anos 30, tendo realizado a sua primeira exposição em 1935. Lembrado pelo seu olhar inovador, onde predomina a harmonia compositiva e os jogos de luz e cromáticos, Norman Parkinson não deixa de colocar em fotografia a estética e a luz do cinema dos anos 40 e 50, mesmo que a fotografia de moda refletisse uma certa austeridade do período da guerra e pós-guerra, ou o new look parisiense dos anos 50 ou a irreverência das revistas de moda da década de 60. Por isso foi tão decisivo para as transformações na fotografia de moda no século XX. O seu “segredo” foi simultaneamente conjugar uma elegância casual na roupa e nas poses com imagens comunicativas e de excelente sentido de composição, ao mesmo tempo que retirava os modelos do ambiente estático, sério e controlado dos estúdios fotográficos e os levava para locais da vida quotidiana, juntando-lhes ainda a beleza da luz e a qualidade dos recursos técnicos recorrendo frequentemente ao grande e médio formato. Aliás, a questão da fotografia de moda em exterior é tão revolucionária que mudou a forma como se comunicava com o público, ao mesmo tempo que o próprio Parkinson reconhecia ter-se inspirado em Martin Munkacsi na ideia de colocar os modelos a trabalhar em ambientes exteriores.

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Norman Parkinson, Young Velvets, 1949, trabalho para a revista Vogue

No período que compreende as décadas de 40 e 50, em que se efetiva uma longa colaboração com a Vogue, Parkinson realiza imagens que sugerem narrativas como se poderá ver na Young Velvets (Young Velvets, Young Prices, New York, Vogue, 1949), que junta quatro modelos tendo os arranha-céus de Nova Iorque como pano de fundo e onde a luz e o rigor técnico conferem à imagem a diferenciação de planos que referimos. Aliás, na exposição, as imagens em maior escala resultam melhor por expressarem de forma mais visível a separação tonal que nos é dada por filmes desses formatos.

Foram estas opções que atraíram a atenção de revistas como a Harper’s Bazaar ou a Vogue, com destaque para a importância que a primeira teve na história da fotografia. Aliás, elas são o expoente de uma época de inovação não apenas na fotografia, mas no arranjo gráfico, sendo pena que na exposição não se aprofundem melhor estes aspetos. Exemplo disso, são duas capas expostas que mostram opções “construtivistas”, ainda que “pobres” comparadas com outras capas construídas na mesma época. Não nos esqueçamos ainda de outras publicações, importantes na sua carreira, como a Town & Country, a Queen ou a Bystander.

Ainda que preferindo ter uma exposição com menos imagens mas de maior escala, não nos podemos esquecer que estamos perante uma exposição retrospectiva de 56 anos de carreira de um fotógrafo e que, por isso também, mostram os momentos mais fulgurantes do trabalho do fotografo e do mundo da moda, a par com épocas em que se refletiu, hesitou ou redefiniram caminhos e formas de comunicar a moda.

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Norman Parkinson, Audrey Hepburn, 1955

Nos anos 60 Parkinson abraça a irreverência desse período, abandonando o formalismo de anos anteriores, afastando-se de uma fotografia marcada pelo cinema e culminando, já na década de 80 pelo seu reconhecimento como retratista com a encomenda de imagens que irão integrar a grande exposição retrospetiva na National Portrait Gallery de Londres.

Para além da moda Parkinson tem um interessante trabalho de retrato, menos evidente nesta exposição, um trabalho muito baseado na aproximação aos retratados, real ou a partir de reenquadramentos. Estrelas do rock, de Hollywood ou a família real britânica, foram modelos que inspiraram a sua carreira que terminou, em 1990, em Singapura, a meio de um trabalho.

A exposição, com cerca de 80 fotografias e com curadoria de Terence Pepper começa a circular agora, sendo portanto esta a sua apresentação mundial, entrando depois em itinerância por vários países.

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