Between the Devil and the Deep Blue Sea do fotógrafo sul americano Pieter Hugo no Museu Berardo

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Fotografia Sandra Osório

No Museu Coleção Berardo está patente ao público, até 7 de outubro, a exposição Between the Devil and the Deep Blue Sea do fotógrafo sul americano Pieter Hugo (Joanesburgo, 1976). É uma exposição que aconselhamos que seja vista com tempo, primeiro porque é extensa – são quinze séries fotográficas, segundo porque para “vermos para além das imagens” implica tempo. Acompanha esta exposição um desdobrável exaustivo e bastante informativo, para além do catálogo à venda na loja do Museu e com textos de Ralf Beil, Uta Ruhkamp e Pieter Hugo.

Na realidade a questão de sentirmos os ambientes e de vermos para além das imagens constitui a marca dominante desta exposição, onde o fotógrafo consegue traduzir em imagens a quietude ou o bulício dos espaços, a solenidade e a descontração, o que vai na alma dos retratados ou os preconceitos e hábitos humanos, numa abordagem tecnicamente irrepreensível ao nível da captação da imagem e da impressão, e esteticamente moderna onde o envolvimento emocional do fotógrafo está presente em todas as situações.

Estas quinze séries fotográficas de Between the Devil and the Deep Blue Sea foram produzidas entre 2003 e 2016 e, sendo histórias distintas, têm de comum a interrogação sobre o que nos une e como as pessoas se relacionam com a repressão cultural ou o domínio político. São também imagens que são uma consequência muito pessoal de dilemas e de questões que Pieter Hugo levanta, de um fotógrafo, homem branco, a trabalhar em África, numa sociedade habituada ao sofrimento e à desigualdade, questões que transporta para outras paragens geográficas, sejam elas a China ou os EUA.

O fotógrafo não deixa de lado as sub-culturas sociais ou culturais trazendo a Belém os sem abrigo, os albinos, os domadores de hienas ou os atores de Nollywood. Todos são tratados com respeito e não como excentricidades. Aliás o respeito está presente em todos os retratos, sejam os das crianças sul-africanas e do Ruanda, na primeira sala, sejam os retratos de família feitos na China ou dos sem abrigo, apresentados nas salas seguintes. Aqui não há imagens furtivas, apenas cumplicidade, a que se junta uma composição harmoniosa, moderna mas ao mesmo tempo provocadora quebrando alguns cânones tradicionais do retrato, e ao mesmo tempo concisa, onde a objetividade nos leva de imediato à mensagem que o fotógrafo nos quer transmitir, ainda que sem nos impedir de imaginar a história que está por detrás de cada imagem. Poderíamos ainda juntar a franqueza dessa objetividade que tem presente um tom de crítica político-social (Erro Permanente, Gana, 2009-2010 ou nas vistas aéreas de Diepsloot e de um condomínio em Dainfern, ambas nos arredores de Joanesburgo e significativamente colocadas lado a lado). É mesmo difícil na série Erro Permanente não refletir sobre a sociedade de consumo e o desperdício, que nos faz interrogar sobre o destino os milhares de toneladas de lixo electrónico que produzimos/consumimos.

Captura de tela 2018-09-27 às 14.51.17

Fotografia Sandra Osório

Sob o ponto de vista técnico há que destacar as opções de escala, ideais em cada uma das séries apresentadas, a que se junta uma luz fantástica e um jogo harmonioso de cores fruto de um olhar culto e que é especialmente visível em 1994 Ruanda e África do Sul. As expressões serenas e o retrato direto, numa recuperação de opções dos primeiros anos da fotografia, prolongam-se noutras séries, nomeadamente nos retratos de família, onde se junta a solenidade do momento com a captação do espírito de família. Os olhares diretos além de acentuarem a tranquilidade dos ambientes, fazem com que os retratados “nos olhem” não como intrusos, mas levando-nos até eles, transportando-nos para aqueles espaços, sejam eles o exterior num qualquer campo ou floresta (1994 Ruanda e África do Sul), seja o quarto de uma família chinesa (Conversas em torno de uma sopa de massa), sejam num estúdio simulando uma sala de audiências (Advogados e Procuradores do Supremo Tribunal do Gana, Juízes do Botsuana).

Pieter Hugo coloca nas suas imagens as questões culturais da sociedade atual. A série Conversas em torno de uma sopa de massa (China, 2015-2016) são um exemplo disso, onde uma geração mais velha que cresceu durante o tempo da revolução e viveu grandes sacrifícios pelo país, especialmente no período da designada Revolução Cultural, é posta em paralelo com uma geração mais nova, ávida pelo consumo e pelos gadgets, duas realidades que se sobrepõem no mesmo país.

O olhar crítico do fotografo atinge o seu auge com Laços de Família e com Flores Silvestres da Califórnia. Na primeira destas séries questiona quer o espaço familiar, quer a África do Sul enquanto país ainda marcado pelo colonialismo e pelo apartheid, chamando-lhe de “local problemático, ferido, esquizofrénico e fragmentado”, na segunda não se isenta de registar a vida difícil de muitos sem abrigo, com toda a amplitude do termo, que de resto assinala no desdobrável da exposição.

Outro aspeto a destacar nos trabalhos de Pieter Hugo é a fronteira ténue entre arte e fotografia documental, destacando-se a presença de um olhar informado, do assumir de uma opinião pela imagem, de cada uma das fotografias poder ser contextualizada num dado momento histórico.

Os seus retratos conseguem espelhar as alegrias, as tristezas, as desilusões ou os sonhos de todos os que as suas objectivas captaram. Nem todas as imagens nos confrontam com a beleza compositiva. Algumas confrontam-nos socialmente, provocando-nos desconforto e onde mais uma vez os olhos são a chave. Na série A olhar para o lado, um conjunto que alude à forma mais comum de documentar pessoas e onde o autor fotografou pessoas com deficiências visuais diversas, mas onde se incluiu num auto-retrato, joga-se com a falta de reciprocidade nos olhares para nos transmitir uma ideia de marginalização por uma sociedade que prefere não ver diretamente a deficiência.

Uma palavra ainda para a franqueza do fotografo (e uma lição para muitos fotógrafos) ao confessar-nos a influência do equipamento sobre a forma de fotografar. Não o virtuosismo técnico, mas antes a forma de sentir: “(…) previamente já trabalhara com uma gama de câmaras de diferentes formatos. Trabalhar com uma câmara de grande formato, contudo, inevitavelmente, abranda as coisas. Não é possível precipitar-se, não é possível fotografar espontaneamente (…) ”. Essa franqueza está também presente, ainda que de outra forma em Ruanda 2004: vestígios de um Genocídio, onde as imagens cruas nos levam aos recantos mais negros do género humano, onde a violência com base étnica nos fazem (mais uma vez) prometer “nunca mais”.

Esta é, seguramente, mais uma das exposições a não perder! Até 7 de outubro.  António Lopes

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