Between the Devil and the Deer Blue Sea, em Lisboa, no Museu Coleção Berardo

Captura de tela 2018-09-24 às 16.13.59

Fotografia Margarida Neves

No Museu Coleção Berardo, em Lisboa, está patente ao público até 7 de Outubro, a exposição Between the Devil and the Deep Blue Sea (Entre a Espada e a Palavra), do fotógrafo sul-africano Pieter Hugo.

Quinze séries fotográficas, produzidas entre 2003 e 2016, constituem a obra aqui exposta que exige tempo para ser apreendida na sua totalidade. Desde logo, um conjunto sólido, coeso e heterogéneo, demonstrando a capacidade de trabalho de Pieter Hugo e a sua particular sensibilidade na observação das subculturas e dissonâncias sociais.

Servindo-se maioritariamente do retrato, o qual complementa com algumas naturezas-mortas e paisagens, o fotógrafo capta a fragilidade das sociedades contemporâneas, registando os vestígios e as cicatrizes da repressão cultural e do domínio político, abordando a noção do público e do privado.

Pieter Hugo, tendo assistido ao fim do apartheid em 1994 e sendo um indivíduo criado no período pós-colonial, é um defensor da causa humana, questionando-nos sobre o futuro da humanidade através da leitura que faz do tempo presente e do passado. Esta interpretação, apresentada nas suas imagens pela escolha das figuras que retrata e pela composição criada, torna-nos conscientes de mundos marginais às nossas vivências, frequentemente esquecidos ou minimamente conhecidos.

O artista, percorrendo diversos territórios como sejam a África do Sul, o Ruanda, a Nigéria, o Gana, os Estados Unidos e a China fixa, como o refere a folha de sala, o “momento de vulnerabilidade voluntária” dos seus retratados, provenientes de todas as classes sociais, desde meros desconhecidos até ao seu círculo de amigos e à sua própria família na qual se inclui, auto retratando-se. Esse momento delicado é-nos transmitido pelo fotógrafo com extremo respeito, conservando a identidade e a dignidade das pessoas que enquadra nos seus registos, numa estreita colaboração entre ambos.

Os documentos de Pieter Hugo, em geral a cores mas com algumas exceções em que faz uso do preto e branco, revelam a maturidade deste fotógrafo pela reflexão que as suas imagens nos impõem, bem como pelo seu olhar único e esteticamente atraente, capaz de nos cativar com temáticas de genocídios, lixeiras da era digital ou pessoas marginalizadas. Uma visão intensa e marcante, chocante por vezes, que não deixa lugar à nossa indiferença.

A folha de sala, bilingue, é clara e abrangente. Livre de qualquer interferência e com iluminação adequada, o espaço físico desta mostra permite em geral uma boa leitura das séries fotográficas, salvo pequenas exceções. As grandes dimensões das imagens, em alguns casos, a sua colocação na sala ou o ritmo imposto por determinado conjunto de documentos, podem revelar este espaço como sendo algo diminuto nessas situações. Cada série, apresentada à maneira clássica através de fotografias limitadas por molduras e colocada em evidência pela cor das paredes onde está exposta, tem um ritmo próprio, o qual se diferencia basicamente pela dimensão das imagens.

Pieter Hugo oferece-nos um forte corpo de trabalho, longe do imediatismo fácil e da superficialidade, com uma mensagem profunda e sensível pela condição humana, razões que por si só justificam plenamente uma visita a esta exposição.  Margarida Neves

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