A Coleção de Fotografia do Novo Banco

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A notícia ocupa duas páginas do jornal Público, em dois artigos que causam um misto de espanto e de preocupação, um deles assinado por Cristina Ferreira e outro de Sérgio B. Gomes, um jornalista, crítico e curador que merece todo o respeito pela atenção que tem dedicado à fotografia portuguesa desde há alguns anos. Como pode uma das melhores coleções de fotografia contemporânea, avaliada entre 15 e 20 milhões de euros, estar sujeita a imprevistos do género dos que são noticiados?

Já aqui referimos e aplaudimos a cedência de obras do acervo do Novo banco aos Museus Nacionais. Já aqui louvámos a iniciativa da criação do Novo Banco Cultura. Num país onde os apoios do Estado são estranhos, onde o colecionismo é escasso e onde o hábito de investir em arte, e em fotografia em particular, é algo exótico a existência do Prémio Novo Banco Photo (BES Photo) ou do Prémio Novo Banco Revelação é algo que merece ser referenciado e carinhado.

Por seu turno a coleção de fotografia contemporânea do Novo Banco sempre se assumiu como um ponto alto da atividade cívica e cultural do ex-BES, à semelhança do que acontece com outros bancos, mas neste caso com especial ênfase na fotografia. Tinha uma curadora (Alexandra Pinho), tinha verbas para investimento, era frequentemente apresentada e possuía edições de grande qualidade, em suma era também valorizada, culturalmente e enquanto ativo e era uma referência na fotografia portuguesa. Mais ainda, potenciou o aparecimento de novos valores, divulgou os seus trabalhos e valorizou muitos muitos fotógrafos/artistas no mercado da arte. Em resumo, tornou-se um instrumento de marketing que o banco usou e que tem um valor inestimável. Ainda a propósito do valor, de imagem e económico desta coleção, é deveras significativo que os artigos de Cristina Ferreira e Sérgio B. Gomes surgem na secção economia e não na secção de cultura…

O Novo Banco promete que esta coleção irá ser localizada em Coimbra, no Convento de S. Francisco. Mas, o que fazer com uma coleção que perdeu fulgor nos últimos anos e como atrair especialistas qualificados para a manter e desenvolver, ou que meios irá ter para se alargar ou para potenciar a atividade fotográfica e o aparecimento de novos olhares, já para não falar nas adequadas condições de conservação?

Acidentes com as obras de arte sempre existiram. Todos os Museus, coleções e exposições estão sujeitos a isso. Coleções que perdem o seu fôlego não são novidade. Mas se o Estado suporta os custos de uma Resolução bancária, se os nossos Museus de Arte Contemporânea são tão pobres em fotografia, não seria do Estado dar mais atenção ao destino desta coleção e até, eventualmente, passar para a sua esfera? os artigos de Cristina Ferreira e Sérgio B. Gomes devem merecer a atenção de todos quantos amam a fotografia e se interessam pelo nosso património cultural. Bem sei que a fotografia tem sido sempre o patinho feio das grandes coleções, nacionais ou privadas. Que é feito da Coleção Nacional de Fotografia, constituída em 1990 por Jorge Calado e apresentada na SEC nesse ano? Que é feito da coleção da Fundação Elipse, também propriedade de um banco? Há tanto ainda para fazer em matéria de fotografia… António Lopes

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