Lisboa – arquitetura de um livro

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No Museu da Cidade, instalado no Palácio Pimenta em Lisboa, está patente ao público até 16 de setembro Lisboa – arquitetura de um livro, uma exposição baseada no livro Lisboa, Cidade Triste e Alegre de Victor Palla (1922-2006) e Costa Martins (1922-1996). A curadoria é de Rita Palla Aragão, sendo o projeto expositivo da autoria de Carlos Bártolo e o apoio à investigação de Margarida Almeida Bastos e Paulo Almeida Fernandes. Esta não é uma exposição de fotografia, mas antes uma exposição com fotografias sobre fotografia, ou melhor, sobre um dos mais importantes trabalhos de fotografia e um dos mais importantes livros da fotografia portuguesa, misto de originalidade e sentir a cidade.

A exposição é dedicada a um “poema gráfico”, como os autores chamaram a este livro de culto que tem Lisboa como protagonista. “(…) o retrato da Lisboa humana e viva através dos seus habitantes – de dia, de noite, nos seus bairros, na Baixa, no Tejo – revelação ora alegre ora triste, mas sempre terna e sentida, da vida de uma cidade. Talvez por isso fosse mais adequado chamar-lhe «poema gráfico» – até porque o arranjo das imagens e a própria composição do livro têm, no seu grafismo, o fluir, a alternância de ritmos, as ressonâncias de uma obra poética”. Com ele se retrata Lisboa e as suas gentes, os hábitos, os sorrisos, os momentos cruciais que fazem a vida de uma cidade. Aqui podemos confirmar como estes dois arquitetos transformados em fotógrafos conseguem registar o lado genuíno dos espaços, a expressão das pessoas ou a luz da cidade a par com um intenso trabalho de reflexão e de seleção por parte dos autores.

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Fotografia Victor Palla/Costa Martins

As imagens mostram-nos a cidade tal como ela era, sem maquilhagens, num registo histórico e sociológico notável, longe da imagem de bilhete postal. Logo nas primeiras páginas José Rodrigues Miguéis esclarece-nos: “NÃO: Nada de proas homéricas singrando rio acima, batidas de ignotos mares, a fundar a capital do futuro Império-que-foi: mas um homem hirsuto e furtivo, talvez em busca da liberdade, que um dia assomou aqui (…)”, e mais adiante, a propósito dos temas escolhidos, escreve que: “ainda há beirais floridos, varandas com nespreiras, gaiolas de passarinhos, papagaios, voos de pombas; e mulheres de luto, pimenteiras, namorados esquecidos, velhos dormindo ao sol nos parques e jardins (…)”. Era uma Lisboa genuína, sem dúvida, por vezes próxima do movimento neo-realista italiano da época, que a par dos sorrisos também nos mostra “(…) um ritmo de existência, uma maneira de viver em que há muito mais tristeza que alegria, muito mais pobreza que riqueza. As crianças dançam em roda de braços descaídos, os namorados apertam as mãos, certos de que nunca a vida será tão bela (…)”, nas palavras de João Gaspar Simões, num texto publicado em novembro de 1958 no Jornal de Notícias. É também um retrato de um país triste, como de resto Neal Slavin retratará cerca de uma década depois (Portugal, Fotoporto, 1990).

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Fotografia Victor Palla/Costa Martins

Sob o ponto de vista fotográfico as imagens trazem-nos o movimento, sem preocupações com eventuais arrastamentos, por oposição ao carácter estático que predominava nos Salões. Trazem-nos também o sublinhar da importância das pessoas, algo que a fotografia europeia experimentou no pós-guerra, e trazem igualmente o envolvimento com a ação, com os fotógrafos a vivenciarem os acontecimentos, por oposição à predominância de imagens frias e distantes. Predominam os enquadramentos esteticamente cuidados, próximo do que então também faziam Jorge Silva Araújo, João Martins, Carlos Afonso Dias, Sena da Silva ou Gerárd Castelo-Lopes, ainda que seguindo caminhos fotográficos diferentes.

Mas o livro é mais do que um somatório de boas fotografias e a exposição consegue transmitir isso. O livro é também um modelo de design gráfico inovador, de delicados textos e poesias, expressões de um sentir da cidade pelos autores, de cores de fundo, meias páginas e badanas, que criam um ritmo de imprevisibilidade compaginável com a descoberta da cidade. A exposição, por seu turno, tenta hoje desvendar o pensamento dos autores levando-nos por uma viagem no tempo que nos coloca na Lisboa dos anos cinquenta.

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Habituados a desenhar edifícios, móveis, capas de livros, juntando o design, a arquitetura e a fotografia, Victor Palla e Costa Martins olharam para a alma da cidade traduzida em sombras, reflexos e ângulos que emprestam uma ambiência original na época, que cruza influências com a literatura, o cinema ou a vida política e social. Junte-se um grafismo inovador que vai beber influências às décadas de 20,como o lettring, a 50 com a fotografia e o design. Às imagens juntam-se poemas inéditos de Alexandre O’Neill, Armindo Rodrigues, David Mourão Ferreira, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena e José Gomes Ferreira, e ainda um texto de Rodrigues Miguéis, para além de Gil Vicente, Mário de Sá-Carneiro, Cesário Verde, Almada Negreiros, Sebastião da Gama, António Botto ou Àlvaro de Campos, entre outros. E a este livro há que juntar um índice com descrições técnicas, comentários dos autores e do porquê de algumas opções na conceção da obra, numa demonstração simultânea que a técnica é apenas um instrumento e não o fim em si, e que a transmissão do sentir perdura na vida das imagens.

Já muito se disse e escreveu sobre os autores e sobre esta obra, mas isso em nada diminui a sua importância no contexto da fotografia portuguesa. Por isso esta é uma exposição imperdível para quem quer conhecer a história da fotografia portuguesa, para quem quer conhecer o trabalho de Palla e Costa Martins, que assinaram coletivamente o trabalho, para quem quer saber um pouco mais de fotografia. É uma exposição didática baseada em imagens de Lisboa, feitas de forma sistemática a partir de 1956, tendo a sustentá-la uma investigação sólida.

Tudo partiu de um largo acervo fotográfico feito, como se disse, a partir de 1956 de cerca de seis mil fotografias, das quais os autores escolheram cerca de duzentas para integrar o livro, que deram origem a uma exposição, em outubro de 1958 na Galeria do Diário de Notícias, em Lisboa, e nesse mesmo ano na Galeria Divulgação, no Porto. A obra seria editada em sete fascículos de 22 páginas cada, tendo o primeiro sido editado em novembro desse ano, completando-se já em 1959.

A verdade é que a obra não teve o sucesso esperado, e uma grande parte da ambiciosa edição de 2000 exemplares acabou esquecida durante anos tornando-se assim uma raridade alfarrabística. O projeto só seria resgatado pela Galeria Ether – vale tudo menos tirar olhos, com uma exposição de 30 imagens e 19 documentos/fotografias originais (Lisboa, Tejo e Tudo, 1982) e com a encadernação cerca de 200 exemplares com alguns dos fascículos que tinham ficado esquecidos para além da edição de um pequeno catálogo que acompanhou a exposição. A esta exposição segue-se a apresentação destas imagens durante os 3º Encontros de Fotografia de Coimbra (1982), em Serralves (1989) e Europália (Charleroi, 1991). Martin Parr e Gerry Badger incluíram a obra no seu livro The Photobook: A History, vol I (Phaidon, 2004), originando um renovado interesse sobre essa Lisboa “triste e alegre”, agora alvo da curiosidade de fotógrafos e colecionadores, continuada aliás com as edições fac-similadas de 2009 e 2015 da Editora Pierre Von Kleist. Qual a diferença entre 1959 e 2015 deste que é considerado um dos melhores álbuns de fotografia? Como muito bem refere Alexandre Pomar no texto inserto hoje no jornal Público o livro “(…) existia nas estantes de arquitectos e de outros intelectuais, mas não havia ainda memória nem cultura fotográfica fora de reduzidos círculos de apreciadores. A fotografia não entrara nos museus e galerias, não se coleccionava. Nos inícios dessa década de 1980, a condição (divulgação e produção) da fotografia estava a mudar bruscamente, com os Encontros de Coimbra e com a Ether, a revista Nova Imagem e a chegada da crítica da especialidade à imprensa generalista. A fotografia acedeu então à área da cultura geral, a concorrer com as artes plásticas (…)”.

Mas esta exposição tem ainda um elemento fundamental: um filme com diversas entrevistas, que se revela importante para a compreensão da obra, do ambiente fotográfico da época e dos anos posteriores. Uma exposição onde a sua montagem nos ajuda a compreender as opções de trabalho então tomadas e que inclui ainda desenhos da época onde podemos ver a ideia dos autores em matéria de paginação.

Importante é também o catálogo editado pela Câmara Municipal de Lisboa com textos de Alexandre Pomar, André Príncipe, Mário Moura, Michel Toussaint, Luís Camanho, Paulo Catrica, Pedro Mexia e Teresa Siza, que por si só são importantes contributos para a história e para a partilha de sentimentos face às imagens ou à relação dos seus autores com Victor Palla e Costa Martins.

Esta é, como já se disse, uma exposição a não perder. É também uma exposição para ver com tempo, se possível mais de uma vez. Só assim usufruímos dela e só assim compreendemos a complexidade de Lisboa, Cidade Triste e Alegre. António Lopes

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