Lisboa,Cidade Triste e Alegre

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Partilhamos uma notícia de Alexandre Pomar a propósito de um livro histórico da fotografia portuguesa: Lisboa, Cidade Triste e Alegre de Victor Palla e Costa Martins. Isto porque no próximo dia 12, pelas 18.30 horas, no Museu da Cidade de Lisboa, no Campo Grande, inaugura uma exposição com o nome de Lisboa, Cidade Triste e Alegre – Arquitetura de um Livro, comissariada por Rita Palla Aragão, que nas palavras divulgadas pelo Museu da Cidade “traz um olhar aprofundado sobre o mais importante livro de fotografia do século XX em Portugal, editado em 1959 por Victor Palla (1922-2006) e Costa Martins (1922-1996).

Das seis mil fotografias realizadas, os autores escolheram cerca de duzentas para integrar o livro, às quais acrescentaram um índice longo e singular (que explica grande parte do processo criativo) e uma série de poemas que convertem a obra num verdadeiro poema gráfico.

Livro de culto sobre Lisboa, considerou-se fundamental dedicar-lhe uma exposição na cidade que o inspirou e à qual os autores consagraram esta obra, que assim descreveram na apresentação:

«(…) o retrato da Lisboa humana e viva através dos seus habitantes – de dia, de noite, nos seus bairros, na Baixa, no Tejo – revelação ora alegre ora triste, mas sempre terna e sentida, da vida de uma cidade. Talvez por isso fosse mais adequado chamar-lhe «poema gráfico» – até porque o arranjo das imagens e a própria composição do livro têm, no seu grafismo, o fluir, a alternância de ritmos, as ressonâncias de uma obra poética.»

Dada a diversidade de características da obra – que ultrapassam largamente o domínio da fotografia – o Museu de Lisboa convidou, para prestar testemunho, um conjunto de personalidades provenientes de áreas distintas. Assim, participam no catálogo e no ciclo de conversas: Alexandre Pomar, André Príncipe, Mário Moura, Michel Toussaint, Luís Camanho, Paulo Catrica, Pedro Mexia e Teresa Siza.

Este projeto é de uma exposição e também de uma edição. Paralelamente à exposição, o Jornal Público, de que o Museu de Lisboa (EGEAC) é parceiro, publicará uma reedição da primeira versão do livro em fascículos a partir de dia 14 de abril. ”

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Reeditado em 2015 pela Pierre von Kleist manteve junto do meio fotográfico o culto merecido ao mesmo tempo que divulgou a obra destes dois grandes arquitetos e fotógrafos. Entretanto, para melhor compreensão da importância histórica deste livro, na sua época inovador graficamente e na abordagem fotográfica no panorama da fotografia nacional, entendemos importante deixar aqui também as palavras escritas por Alexandre Pomar:

Podemos falar do livro “Lisboa ‘cidade triste e alegre’” como uma espécie de cometa que de x em x anos surgia de surpresa no horizonte da fotografia portuguesa, da edição e da cidade. Apareceu do nada (segundo se julgou depois) em 1958/59, em duas exposições e em fascículos, a reunir num volume – depois esqueceu-se. Voltou em 1982, na galeria/associação Ether, numa diferente exposição e com a encadernação de 200 exemplares de sobras, esboçando-se-lhe então a memória escrita nas histórias da fotografia de António Sena (1991 e 1998) – registo que exige revisões. Sagrou-se em 2004 com o aplauso internacional, quando Martin Parr e Gerry Badger popularizaram o conceito de fotolivro – a reedição em fac-símile seguiu-se em 2009. Terá sido, no entanto, Philippe Arbaizar, que em 2002 falava ainda em “livro de fotógrafo” para distinguir de livro de fotografia, o primeiro a destacar lá fora a edição de Palla & Martins – associou-a a “Life is Good for you in New York”, de William Klein, 1956, apontando “um sentimento urbano radicalmente diferente”, de uma “cidade suspensa no tempo, captada entre a nostalgia e um futuro improvável”, sob um título de fado (In Les Cahiers du Musée national d’art moderne, Centre Pompidou, nº 81, p. 48).

O cometa passou a poder ser apreciado como um puzzle, sempre protagonizado pela figura plural de Palla, desde a sua antologia no Centro de Arte Moderna, em 1992 (o também arquitecto Costa Martins continuara a expor e editar). A diversidade da produção fotográfica de Victor Palla entrou no mercado com a exposição-leilão de 2008 na P4 Photography – descobriu-se então a obra “heterodoxa”, antes e depois de “Lisboa…” Em 2009, o espaço que lhe foi dedicado na mostra “Histórias de Lisboa no Museu da Cidade” (sem catálogo, mas uma excelente exposição) trouxe documentação esquecida, em texto e imagem, sobre o livro e a sua concepção. É o que agora se revê e amplia muito no Museu de Lisboa. E nesse mesmo ano de 2009 o conhecimento do contexto da fotografia nacional nos anos 50 levou uma radical reviravolta na exposição “Batalha de Sombras” (exposição de Emília Tavares e Museu do Chiado no Museu do Neo-Realismo, Vila franca de Xira).

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