Fluxos – fotografia de Roberto Santandreu

Captura de tela 2018-01-12 às 17.10.54

Texto e fotografia Margarida Neves

O Convento dos Capuchos, na Caparica, apresenta-nos a exposição Fluxos do fotógrafo chileno Roberto Santandreu e integrada no Mês da Fotografia ImaginArte Almada 2017.

Roberto Santandreu partilha com o público uma série de registos de tampas metálicas ou de outros materiais, encontradas no asfalto das estradas ou nas calçadas das diversas cidades por onde tem passado e que permitem o acesso às redes subterrâneas de distribuição de água, esgotos, electricidade, gás e comunicações desses aglomerados urbanos.

Os desenhos, texturas e funcionalidade dessas tampas captaram a atenção do fotógrafo nas suas andanças, dando assim origem à execução de um conjunto de fotografias a preto e branco de singular beleza e harmonia, onde a excelente qualidade técnica no registo da luz não é de todo alheia ao resultado final.

As doutrinas dos filósofos pré-socráticos, também chamados naturalistas ou filósofos da natureza, relativas aos elementos originários do Universo, o ar, a água e o fogo influenciaram de igual modo Roberto Santandreu, ao sintetizar esses pensamentos no objecto único que figura nas suas imagens, atribuindo-lhe um carácter simbólico como representação desses elementos.

O trabalho aqui patente está longe de ser superficial ou banal, submetendo o nosso olhar a múltiplas reflexões sobre algo que, frequentemente, nos “passa ao lado” na nossa corrida diária.

Desde logo, ao cingir esta mostra às imagens das tampas mencionadas, quais portas de entrada de um mundo oculto, Roberto Santandreu salienta-nos, em primeiro lugar, a importância na nossa sociedade da estrutura “invisível” que se desenvolve para lá dessas portas. Sem recorrer à revelação directa e óbvia do que se encontra no subsolo, o artista leva-nos inevitavelmente à constatação dessa realidade, indispensável no nosso dia a dia.

O fluxo dos nossos passos, das nossas vidas, ora calmo e contemplativo, ora apressado e indiferente faz-se, inquestionavelmente, sobre estas tampas, existentes aqui e ali nas estradas e nos passeios das rotas que percorremos. Testemunham episódios do nosso quotidiano e separam o solo que nos serve de base, iluminado e visível, das redes complexas e escondidas existentes por baixo da sua superfície, onde fluxos de outros elementos se geram, movimentando-se em plena escuridão.

Num outro plano, esta ideia de dois universos interligados pode ser também espelhada na própria figura humana: a sua aparência exterior, iluminada, visível que se revela sem subterfúgios e o seu “eu” interior, que não se vê num primeiro olhar mas que pode emergir para a luz através da abertura de determinadas portas que dão acesso à sua alma.

O percurso de vida do fotógrafo e as viagens por ele efectuadas que desencadearam a recolha destes documentos, transportam-nos para várias cidades espalhadas pelo mundo. Somos capazes de nos observar, aqui por perto, deambulando por Lisboa, Almada, Setúbal, Cascais, Sintra, Oeiras, Vila Franca de Xira ou S. Martinho do Porto. Numa escala mais longínqua, imaginamo-nos noutros países tal como Argentina, Alemanha, Holanda ou Uruguai, percorrendo ruas de Buenos Aires, Frankfurt, Amsterdão ou Montevidéu.

A inesperada associação de recordações do fotógrafo inerentes aos locais onde as tampas se situam e os estados emotivos sentidos por Roberto Santandreu nesses lugares são-nos transmitidos por pequenas anotações manuscritas em cada fotografia. Para esse efeito o artista evoca acontecimentos históricos, refere pormenores ocorridos na sua vida ou destaca escritores, poetas, pensadores, pintores e músicos intrínsecos desses locais, imprimindo uma nova e atractiva dimensão aos documentos apresentados.

Roberto Santandreu deslumbra-nos com mestria quando nos faz reconhecer nos próprios desenhos e padrões patentes em cada tampa as memórias que nos divulga. Ao fazer desfilar perante os nossos olhos estas tampas cuja forma é sempre circular (salvo duas excepções), o artista remete-nos para a interpretação, segundo alguns, da figura do círculo enquanto representação do ciclo da vida e como símbolo da eternidade, da perfeição e da divindade para outros, acrescentando um outro patamar ao objecto retratado. Um conjunto de imagens que merece, sem dúvida, a nossa atenção e admiração! Margarida Neves

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