Lu Nan: trilogia, fotografias 1989-2004

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O Museu Coleção Berardo no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, mostra o trabalho do fotógrafo chinês Lu Nan, centrado numa trilogia com início em 1989 e conclusão em 2004.

O olhar de Lu Nan leva-nos numa viagem em três fases por zonas profundas da China, retratando respectivamente, o que pode ser o Inferno, o Purgatório e o Paraíso sobre a Terra. Um olhar ora duro e marcante, ora terno e tranquilo, reproduzido em fotografias a preto e branco de excelente qualidade técnica e estética.

Iniciamos a viagem com O Povo Esquecido: as condições de vida dos doentes psiquiátricos na China, uma descida ao Inferno entre 1989 e 1990. Lu Nan mostra-nos as condições de vida dos doentes mentais em diversos hospitais ou no seio das suas famílias. Fotografias de uma realidade que impressiona, um misto de horror e sofrimento temperado com momentos capazes de nos roubar um sorriso. Arrepiamo-nos com a imagem de um homem acorrentado pelo pulso, numa zona lúgubre de uma casa em Shaanxi ou com as de diversos registos em hospitais psiquiátricos: um homem deitado numa cama, tapado com um lençol que lhe deixa apenas o rosto a descoberto; uma mulher nua, sentada sobre uma cama sem colchão; uma menina que abraça o seu panda de peluche, encarando directamente a câmera. Por outro lado, imagens captadas num hospital para doentes mentais podem arrancar-nos um sorriso inesperado: ao olharmos para um comum jogo de cartas, apercebemo-nos do facto insólito de alguns dos participantes terem uma almofada sobre a cabeça; ou ao sermos surpreendidos ao vermos dois pacientes saltando à corda num pátio exterior.

Seguimos para Na Estrada: a fé católica na China, o Purgatório no período de 1992 a 1996. Lu Nan regista aqui um povo crente, cuja fé é demonstrada quotidianamente em qualquer lugar, seja numa rua, no interior de uma casa particular ou num lugar de culto. Um povo que, sujeito às provações da vida, busca o amor e a luz no interior de si mesmo. Documentos fotográficos que nos captam o olhar pela intensidade da fé que nos transmitem.

A surpresa surge em “Confissão, Shaanxi, 1992” ao depararmos com um simples confessionário improvisado numa rua, a descoberto de quem passa. A provação da morte de um ente querido está bem patente em “Duas Mulheres de Etnia Miao com crianças junto a uma sepultura, Yunnan, 1993”. Nesta imagem, o olhar de uma criança na direção de duas mulheres à beira de uma sepultura, chama particularmente a nossa atenção. Constatamos a vincada crença católica nas várias gerações dos membros de uma família em “Celebração da missa numa casa, Shaanxi, 1995”.

E por fim, eis-nos chegados ao Paraíso, na fase final da nossa viagem com Quatro Estações: o dia a dia dos camponeses tibetanos entre 1996 e 2004. Ao longo das quatro estações do ano, Lu Nan percorre o Tibete dando-nos a conhecer o quotidiano rural de um povo em paz consigo mesmo. Um retrato sensível, terno e de uma tranquilidade que nos arrebata.

Com “Idosa a prepara-se para lavrar a terra, Tibete, 2004” apercebemo-nos que algumas tarefas diárias, por vezes árduas, são encaradas com suavidade e tranquilidade por parte de uma mulher idosa. Rejubilamos com a felicidade estampada no rosto de uma mulher, segurando o seu filho, em “Mulher com um cordeiro ao colo alimentando o filho, Tibete, 2001”. Em “Avó sofrendo de enxaquecas em casa da vizinha e neto preocupado, Tibete, 2001” não podemos deixar de nos emocionar com a preocupação do neto pela sua avó e com o olhar protector da vizinha sobre ambos. “Mãe e Filha, Tibete, 2001” traz-nos a beleza de um momento, captando a ternura de um bebé que dorme ao colo da mãe, sugerida esta última, apenas pela sua mão sobre a filha adormecida.

Uma viagem decididamente a não perder! Margarida Neves

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