Al.em Marcha

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Fotografia Cabral Nunes

Anunciámos há dias a exposição Al.em Marcha, inaugurada no passado sábado, na Perve Galeria e na Sociedade Boa União, em Alfama. Mais do que uma exposição de fotografia é um manifesto cívico e um grito de revolta. Desde que há poucos anos atrás (2012) foi publicada a nova lei do arrendamento, que Lisboa e Porto assistem impotentes à escalada de preços e, mais grave, à descaracterização das suas cidades. É certo que nada disto é novo em cidades como Veneza ou Barcelona. Lisboa é apenas mais uma cidade onde se assiste à saída dos seus habitantes de forma forçada por troca com os alojamentos locais. Era interessante as Câmaras Municipais de Lisboa e do Porto saberem quantas associações culturais, clubes recreativos e até empresas já saíram dos seus centros históricos, ou acabaram, para dar lugar aos alojamentos locais.

Por isso a atenção que merece este projeto, uma iniciativa da APPA (Associação do Património e População de Alfama), que em conjunto com a Perve Galeria e a Sociedade Boa União, apresentam a exposição Al.em Marcha.

A iniciativa constitui-se como o ano zero de uma Bienal de Arte e Cultura Popular e o ponto de partida para o desenvolvimento de um projecto museológico dedicado a esta importante manifestação da cultura popular bairrista de Lisboa, as Marchas Populares. Com subtítulo “Alfama é Marcha” e conceito artístico abrangente, “para além da Marcha”, a mostra expõe na Perve Galeria e na Sociedade Boa União, o património associado à marcha popular do bairro, produzido entre os anos de 1930 e a actualidade, a par com uma recolha imagética/fotográfica da mais recente edição das Marchas em Lisboa, e com o trabalho artístico resultante da reflexão que vários artistas contemporâneos fizeram sobre este fenómeno popular, numa realização específica e aprofundada do conceito expositivo. Por isso também o destaque para o trabalho de alguns artistas e fotógrafos, de entre os quais destacamos José Chambel, Cabral Nunes ou Céu Guarda.

Em causa, está uma reflexão que vai muito “Além da Marcha” e que se prende com a necessidade de refletir sobre manifestações populares que tendem a desaparecer ou descaracterizar-se, se a cultura contemporânea e os artistas, poetas, músicos, e outros agentes culturais, não se apropriarem desses registos e os recontextualizarem à luz de conceitos atuais para desenvolverem formulações que possam interpelar o público, de forma surpreendente, renovando o interesse e o discurso dessas manifestações. Isto, a par com a gentrificação que se tem vindo a operar no centro histórico da cidade, decorrente da massificação do turismo, que progressivamente afasta as populações locais que tem assegurado a continuidade destas manifestações. A curadoria da exposição é de Carlos Cabral Nunes.

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