Fernando Guerra – Raio X de uma prática fotográfica no CCB

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Fotografia Fernando Guerra, Zaha Hadid, Galaxy Soho, Beijing, China

A pedido de vários leitores e instrumento pedagógico usado nos nossos Cursos de Fotografia Profissional e Avançado, repomos o artigo de análise à exposição Raio X de uma prática fotográfica, de Fernando Guerra, patente no CCB, em Lisboa, até meados de outubro.

Na Garagem Sul do Centro Cultural de Belém está patente, até meados de outubro, a exposição Raio X de uma prática fotográfica, de Fernando Guerra (Lisboa, 1970). Luís Santiago, curador desta exposição, em texto publicado na folha de sala, começa por nos lembrar que “a fotografia de arquitetura ganhou, com o novo milénio, uma preponderância exponencial na relação dos arquitetos com a sociedade,” para mais adiante se questionar, e nos questionar, com a própria relação da fotografia com a arquitetura. “A verdade é que a história da fotografia de arquitetura é tão fascinante quanto ambígua. Continuam a faltar-nos critérios consensuais quanto ao seu território disciplinar e objetivos programáticos, configurando uma área da cultura visual amplamente problemática. É a fotografia de arquitetura um género temático da fotografia? Ou pertence a fotografia de arquitetura aos modos de representação da arquitetura?” Esta questão, aparentemente simples, merece reflexão para quem faz fotografia, de arquitetura neste caso. Lembrando Óscar Niemeyer nesta matéria, um bom fotógrafo de arquitetura tem de saber de arquitetura, o que não quer dizer um vínculo de dependência entre fotógrafo e arquiteto. É isso que sentimos ao visitar esta exposição e constitui uma parte do fascínio dela: estamos a visitar uma exposição de arquitetura, de fotografia, ou ambas?

Esta é, portanto, uma exposição a não perder. Pelas imagens, sem a menor dúvida, pela arquitetura, que nos conduz a um outro olhar por espaços, linhas e luzes, ou por outras palavras pela educação visual, e pela cultura fotográfica, já que a exposição possui um conjunto de vídeos fundamentais para se aprender fotografia, desde outros ângulos e olhares, à história da fotografia. Por isso não esperemos ir ver uma exposição de fotografia tradicional, com imagens penduradas nas paredes, certinhas e sequenciais, mas antes um conjunto de relações entre a imagem fotográfica e a forma dos edifícios, entre a presença da forma e a silhueta fugídia de um corpo, num olhar de um fotografo que é simultaneamente intérprete e criador.

Esta “mistura” de fotografia com outras áreas, aparentemente distintas, é-nos novamente lembrada na folha de sala quando o texto de Luís Santiago Batista nos refere que “não seria pela via da arte (…) mas pela arquitetura moderna, que a fotografia de arquitetura se instauraria profissionalmente.” É também sublinhada por uma exposiçãoo que alia o virtuosismo técnico à criatividade estética e ao prazer de fotografar e ao deleite do olhar pelo fotógrafo patentes em cada uma das imagens.

Fernando Guerra (juntamente com o irmão Sérgio) têm construído em Portugal uma outra forma de olhar para a fotografia de arquitetura, talvez tão intensa como só o vemos recuando ao tempo dos irmãos Novais, autores de notáveis registos hoje pertença do Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa e da Fundação Gulbenkian. Se é verdade que Fernando Guerra construiu um portfólio de mais de 180 mil imagens, a verdade é que esta exposição mais do que mostrar interessantes imagens, nos lembra a cada passo a importância da arquitetura e da fotografia de arquitetura na vida das grandes e pequenas cidades, dos locais do interior e da costa, nos locais mais isolados ou mais cosmopolitas e, principalmente, na vida das pessoas.

Captura de tela 2017-07-20 às 13.42.30

Fotografia Fernando Guerra, Richter Dahl Rocha & Associés, EPFL Quartier Nord, Residência de estudantes, Ecubiens, Suiça

Esta é, também, uma exposição de Fernando Guerra e da sua relação com a imagem e enquanto criador. Por isso vemos fotografias, objetos, publicações ou material fotográfico numa mesa que se impõe ao visitante e onde o nosso olhar se espraia numa fita do tempo, desde há alguns anos até à atualidade. Desde o material fotográfico em película ou as primeiras publicações de Fernando Guerra, até aos drones e às máquinas digitais, ou aos objetos de design pessoal, ficamos com uma ideia temporal da produção de Fernando Guerra.

Mas esta é também uma exposição feita de imagens irrepetíveis, ou pela luz captada num momento único, ou por um vulto que fica registado e que nunca pareceria ficar tão bem se fosse captado uma fração de segundo antes ou depois, ou por um enquadramento que o fotógrafo viu e mais ninguém vislumbrou.

Tudo isto nos lembra que Fernando Guerra tem um sentido estético atento e moderno. São claras as referências a Thomas Struth, Andreas Gursky ou até ao casal Becher nas imagens de Fernando Guerra. É evidente que não são totalmente sobreponíveis, porque a génese das imagens é diferente e porque se nota a maior influência do digital em Fernando Guerra. Mas há ali muitos pontos em comum e que fazem desta uma grande exposição de fotografia. É um olhar atento, provocadoramente (e modernamente) formal, que expressa em simultâneo rigor, criatividade e (porque não?) poesia e que justifica perfeitamente o facto de ter vencido o Arcaid Images Architectural Photography Award  com uma fotografia do Centro de Convenções da SwissTech, entre outros prémios nacionais e internacionais.

Esta é uma exposição vasta e multifacetada. Preparemos algumas horas para a ver. E para a sentir. Sentir o êxtase da beleza das formas e das linhas. Para nos interrogarmos da relação de Guerra com a arte contemporânea, num território intermédio entre o puramente artístico e o documento, no que vem à memória a importância de Atget na história de Paris e na história da fotografia. É uma exposição que nos provoca sensações estranhas: se por um lado nos inebria, por vezes sentindo vontade de estar em frente àqueles edifícios, gozando momentos de rara beleza, por outro lado sentimos vontade de manter distância para olhar de forma descomprometida, neutra até, como se tal fosse possível. É também uma exposição de montagem complexa, que por isso nos sugere formas menos comuns de mostrar imagens e, principalmente que nos mostrar que todos os detalhes são importantes na composição. Que nos diz que fotografar implica opções criteriosas na escolha do enquadramento ou da luz. Que implica ter a noção de escala e da aproximação certa ao objeto ou, como é referido num dos vídeos e tal como Ícaro, não vermos um edifício nem excessivamente perto, nem excessivamente longe. Não tão perto que se perca a ideia do conjunto e da escala, nem tão longe que se perca a definição. Esse é, talvez, o segredo da fotografia de arquitetura, a par com a chamada de atenção para a beleza dos espaços e do objeto arquitetónico, de planos pensados, enquadramentos precisos e de luzes que se antecipam.

Ainda na grande mesa que ocupa o espaço central, Fernando Guerra surpreende-nos com dois trabalhos de grande beleza: O lago dos Cisnes (2013) e Trabalhadores na Praia do Calhau (2009), mostrando-nos uma versatilidade tão surpreendente quanto desconcertante. Na realidade dois excelentes trabalhos para quem ao longo da exposição encarou a fotografia de arquitetura como “a escolhida”, mas afinal a mostrar que os tempos da reportagem e das suas origens fotográficas continuam vivos. António Lopes

 

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