Operação Condor de João Pina, em Lisboa

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Fotografia Hugo Martins / APAF

Até 18 de julho, no torreão poente da Praça do Comércio, em Lisboa, está patente a exposição Operação Condor, de João Pina (Lisboa, 1980). A exposição que já antes foi apresentada em S. Paulo, Montevideu, Buenos Aires e Santiago do Chile, para além dos Encontros de Fotografia de Arles, em França, tem curadoria de Diógenes Moura.

Foi há quase dez anos que João Pina decidiu fazer um trabalho sobre a Operação Condor, uma operação político-militar que, em 1975, uniu os serviços secretos da Argentina, Uruguai, Brasil, Paraguai, Chile e Bolívia, no sentido de extreminar toda a oposição política aos regimes então vigentes e que custou a vida, calcula-se, a mais de 60 000 pessoas. Esta exposição, além de um documento sobre acontecimentos e espaços, é também um momento de reflexão sobre a privação da liberdade e a intolerância. Por isso, este é muito mais do que um projeto fotográfico, em livro e em imagens expostas na parede, é igualmente um grito a favor da liberdade de pensamento e contra a bestialidade humana.

João Pina passou os últimos anos, a par de outros trabalhos fotojornalísticos, a investigar, a mergulhar em arquivos, a visitar locais ou a entrevistar sobreviventes e familiares de muitos dos que então foram presos. A revista L’Oeil de la Photographie destacou este trabalho, agora exposto em Lisboa, como “uma homenagem às vítimas da Operação Condor”.

São cerca de uma centena de imagens, impecavelmente impressas sobre o escuro, contrastadas e com negros profundos, o que conjugado com a sala permite uma leitura pesada, que traduz uma ideia de momentos pesados, de repressão e de falta de liberdade. A entrada, em túnel, acentua esta sensação de corte com o exterior, por contraste com o amplo espaço da Praça e com a luz do sol. Somos recebidos por grandes retratos de cidadãos brasileiros que foram para o Chile socialista de Salvador Allende, que após o golpe de Pinochet fugiram para a Argentina onde viriam a ser perseguidos.

Numa escala que dialoga connosco, estas são imagens de gente que nos fita olhos nos olhos, que nos interroga. São imagens que revelam os efeitos que as ditaduras provocaram nas sociedades daqueles países. De gente que viu os seus familiares serem torturados e mortos, sem nenhuma outra razão que não fora o terem uma opinião diferente do que ambicionavam para o coletivo. São espaços que falam connosco, como o Estádio Nacional do Chile (Santiago do Chile, 2008), com as suas bancadas vizias, num ritmo repetitivo, hoje um memorial do que aconteceu em 1973, quando milhares de pessoas ali foram detidas após o golpe que derrubou Salvador Allende. São também imagens que se impõem visualmente pela estranheza, como é o caso do avião usado pelos militares argentinos para lançar militantes de esquerda ainda vivos ao oceano ou ao rio de La Plata (Esteban Echeverria, 2011). É ainda o caso daquela árvore, isolada num campo de estacas que assinalam os corpos ali enterrados (Bahia Blanca, 2012).

 

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Mas são também imagens visualmente perturbantes, porque se imaginamos o ruído de uma manifestação ou o barulho dos motores de um avião, a verdade é que são também imagens onde impera um silêncio que estabelece um contraste entre o que vemos e imaginamos e o que os sentidos nesse momento nos dizem. Um silêncio que se prolonga nos espaços vazios e abandonados dos centros de detenção e no que imagimamos serem os momentos de dor e sofrimento de quem passou por ali (entrada do Londres 38, Santiago do Chile, 2008; Olimpo, Buenos Aires, 2007; sala Orletti, Buenos Aires, 2012). Destaque também para a enigmática imagem do Rio de la Plata (2012), que abre o horizonte perante os nossos olhos ao mesmo tempo que esconde os milhares de cadáveres ali sepultados.

Noutra zona da exposição podem observar-se momentos dos julgamentos dos militares posteriormente acusados e dos seus apoiantes. Usando uma escala mais pequena, aqui os rostos não se impõem, escondem-se ou, contraditóriamente assumem uma atitude de provocação e de arrogância, patentes na maioria deles, de rostos sem pinga de arrependimento. Em contraponto temos logo em frente imagens de famílias que nos interrogam, que nos perguntam o porquê (Florida, 2010). Esta é uma exposição onde é clara a noção de conceito que une todas as imagens, pensado, refletido e bem executado. E bem apresentada. Ao núcleo das memórias, de gentes simples nos rostos e no vestir (à direita de quem entra) contrapõe-se o núcleo onde se mostram os julgamentos onde a arrogância convive com o bem vestir. São pormenores da curadoria que muito favorecem o trabalho e a sua leitura.

Por ultimo destaque para o catálogo. Bem impresso, com um arranjo gráfico digno de nota, numa edição da Tinta da China.

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São anos de trabalho, de muitas entrevistas, de muitas terras percorridas, de muitas sensações vividas. O resultado é uma excelente exposição, que nos recorda momentos da História do mundo, que nos mostra fotografias concebidas com alma. A não perder até 18 de julho. António Lopes / Hugo Martins

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