Tempo depois do tempo, de Alfredo Cunha

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Fotografia Alfredo Cunha, Vila Franca de Xira, 1975

Até 25 de abril próximo, no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional, em Lisboa, está patente Tempo depois do Tempo, de Alfredo Cunha (Celorico da Beira, 1953).

Em primeiro lugar há que compreender que se trata de uma exposição simultaneamente monográfica e antológica. Monográfica porque reflete o percurso do artista, sendo clara a sua evolução técnica e estética, antologica porque se centra numa seleção das principais obras de Alfredo Cunha, a partir da sua vastissíma produção. É a primeira grande exposição retrospectiva do seu trabalho, desde a década de setenta do século XX até á atualidade e por isso, e pela forma como a exposição reflete diferentes momentos da fotografia portuguesa, uma boa lição de história da fotografia. Simultaneamente, e porque os seus trabalhos são jornalísticos, esta mostra é também um relato muito fiel da história do nosso país e do mundo nos últimos anos.

Destaque para o cuidado posto pelos funcionários da EGEAC em aconselharem os visitantes a começarem a visita pelo 1º andar, “a sugestão do fotografo”. É talvez o núcleo mais frágil, acentuado pela carga visual e pelo péssimo estado em que as imagens nos são apresentadas, dobradas pelo calor ou pelos suportes que existem por detrás delas.

Podemos usar as palavras de João Silva, fotojornalista do New York Times, para resumir a primeira sala, uma representação do mundo onde “vida, morte, amor e guerra, tudo está representado nesta coleção de Alfredo Cunha”. São muitas imagens e admitindo a necessidade de se mostrar toda uma carreira profissional, a verdade é que somos submergidos em imagens e não desfrutamos de nenhuma em particular. Qualquer fotógrafo sabe que a exposição ideal não existe. Há sempre opções, e aqui, face a tantos anos de trabalho, o fotógrafo correu riscos que talvez não tivessem sido necessários. Destaque para a empatia com que Alfredo Cunha fotografa as pessoas, sentindo-se muito mais à vontade na Guiné-Bissau ou em Moçambique que na Bósnia ou no Médio Oriente.

Podendo ser discutível a estetização da guerra, não devemos nunca deixar de manifestar o mais profundo respeito por um fotojornalista que regista esses momentos para que nós, calmamente sentados à mesa de um café, possamos ver essas imagens num qualquer jornal. Alfredo Cunha dá-nos esses momentos e dá-nos cumplicidade nos olhares (Moçambique) ou exemplos de um bom timing de disparo (Moçambique), característica fundamental num fotojornalista. As máscaras exageradas mancham um pouco algumas imagens (Cacheu, Guiné-Bissau 2015). Fica também no ar um fotografo mais solto a fotografar e a movimentar-se por comparação com os primeiros anos de carreira, traduzido em ângulos menos formais e em objetivas com distâncias focais mais livres.

Na sala dedicada ao retrato institucional e jornalístico somos convocados para uma sala onde somos o centro, para onde convergem aqueles olhares. É uma sensação curiosa, mas é a vertente mais frágil desta exposição. São demasiadas imagens, mesma sabendo que qualquer escolha poderia ser contestada ou alvo de melindres.

Segue-se uma sala de projetos feitos no âmbito da AMI, que é talvez um dos melhores conjuntos ali apresentados. Filho e neto de fotógrafos, é aqui que Alfredo Cunha melhor mostra a sua relação com a fotografia, sendo nítida a paixão com que fotografa e enfrenta as realidades do fotojornalismo. A imagem das duas meninas com a mãe (?) feita no Níger em 2014 é perturbante, ou aquela caveira que nos olha (Haiti, 2014) são exemplos de um fotografo que consegue transmitir-nos algo sem perder o seu lado humano, sem se render à espetacularidade das notícias. Um fotógrafo que soube acompanhar os tempos estéticos, visto na forma como nos transmite o ambiente e o momento certo em que retrata o sentir de uma família no conturbado mundo em que vivemos (Iraque, 2015).

Ao descermos para o piso térreo temos uma lição de história do país e da fotografia portuguesa. Organizado por décadas, este núcleo mostra-nos os pequenos e grandes factos do mundo. As imagens do 25 de abril são notáveis e sentidas traduzindo também em pleno um momento histórico fundamental para o país. Maria do carmo Serém assinala que há nelas um sentido épico do momento, num olhar que encontra raízes nos fotojornalistas da agência Magnum. São dele algumas das mais marcantes imagens do 25 de Abril de 1974, da descolonização ou mesmo da vida diária de Lisboa em 1974, 1975 e 1976, onde por vezes recorre ao humor na imagem ou ao insólito. É uma característica a que outros fotógrafos recorrem na década de setenta, e de repente lembramo-nos de Gérard Castello-Lopes ou de Sena da Silva.

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Fotografia Alfredo Cunha, Lisboa, 25 de Abril de 1974

Sendo um dos mais experientes repórteres fotográficos nacionais, a sua fotografia foi influenciada pelos diferentes momentos por que passou a fotografia portuguesa. Ver o seu trabalho é também passear um pouco pela história da fotografia portuguesa, desde a década de setenta, período do qual a APAF conserva algumas imagens originais, até à atualidade, onde é visível uma constante atualização do olhar do fotógrafo.

Pitões das Júnias (1973) ou Amadora (1974) traduzem uma época marcada por um olhar neorrealista, onde pontificam a pobreza, o sofrimento ou as marcas do tempo ou da condição. Era uma influência dos Salões que chegava à fotografia profissional, ávida por se libertar da “chapa” do jornalismo anterior ao 25 de Abril e ver a imagem de forma mais “artística” e livre da censura, mantendo uma característica documental importante.

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Fotografia Alfredo Cunha, Pinhão, 1997

É deste período uma das imagens mais icónicas da carreira de Alfredo Cunha, a imagem do homem que trabalha nos vinhedos do Douro (Pinhão, 1977) onde exprime a sua notável empatia com as pessoas e, não menos importante, a sua preocupação de as retratar com dignidade. Nela, como noutras, o olhar profundo e penetrante é algo que Alfredo Cunha consegue captar, deixando-nos antever a alma alheia. A secção dedicada aos anos 80 e 90 reflete um dos melhores períodos de produção do fotógrafo, onde é visível a influência que os Encontros de Fotografia de Coimbra exerceram sobre os fotógrafos nacionais. As imagens de Almeida (1988), Mesão Frio (1988), Espinho (1988) ou do Convento de Singeverga (1977) são simplesmente fantásticas em termos de uma modernidade que se começa a vislumbrar na fotografia portuguesa.

É esta capacidade de adaptação aos novos tempos que merece ser salientada no trabalho de Alfredo Cunha patente na Cordoaria Nacional. A par disso temos um trabalho de luz que é importante destacar, sendo disso exemplo o pastor com o seu rebanho (Guarda, 2007), nas manifestações religiosas (S. Bartolomeu do Mar, 2009 ou Fátima, 2013) ou ainda no Festival de Pardes de Coura (2013).

Essa capacidade de adaptação estética de Alfredo Cunha é visível nas suas imagens mais recentes. Se atrás dissemos que como produçãoo das décadas de setenta e oitenta são de apuro estético, revelando um dos seus melhores períodos, a verdade é que os últimos anos da sua produçãoo são também excecionais. A beleza e a nostalgia está presente em Tua (2015) ou na série Vila Verde, mostrando um fotografo mais juvem que o que deve estar indicado no seu bilhete de identidade.

Um vídeo acompanha esta exposição ajudando a compreender o trabalho do fotografo. Num expositor estão alguns livros marcantes da sua carreira e da fotografia portuguesa. Longe de Vidas Alheias ou de Disparos, estão obras fundamentais para se compreender a noção de projeto fotográfico, hoje comum, ou de levantamento fotográfico com um sentido de preservar memórias de forma coerente: naquele Tempo (1995), O Melhor Café (1996), A Norte (1998).

De toda a exposição, acompanhada por uma elucidativa folha de sala com um texto de Maria do Carmo Serém, predomina a ideia de uma carreira longa, de mais de quatro décadas, mas atual no olhar, de alguém que trabalha intensamente e quando o escrevo não é só fotografar muito, é também ver muitas imagens de outros fotógrafos, que pensa, que procura, que não desiste de fazer mais uma imagem, talvez a tal, que vive e respira a fotografia. Talvez de uma forma obsessiva, como escreve Luís Pedro Nunes. Mas é graças a isso que podemos ver esta lição de história do país e da fotografia. Talvez com demasiadas imagens, repito, mas isto da exposição ideal não existe. António Lopes

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