Tylco, de Pedro Jafuno, na FNAC Chiado, em Lisboa

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Na FNAC Chiado pode ver o trabalho Tylco, de Pedro Jafuno, vencedor do prémio Novos Talentos Fnac 2016.

Tylco nasceu de uma viagem através de algumas cidades da Europa de Leste, iniciada na Polónia e terminada na Bulgária. Enquanto projeto começou com o objectivo de criar uma reportagem fotográfica convencional, em filme de 35 mm, acabando as limitações práticas para revelar e imprimir as imagens por moldar o projeto e até se refletir nas imagens apresentadas. Num trabalho onde, segundo o autor, “deambulou, sem roteiro nem expetativas por ruas de cidades que nunca tinha visitado”, o resultado final acabou por nos oferecer um trabalho que é simultâneamente uma história pessoal, somatório de momentos emocionalmente marcantes e que o autor consegue transmitir a quem vê as imagens. São imagens onde o peso da história política da Europa e de uma realidade (pós-Segunda Guerra) está presente e onde há histórias que se descobrem ao sabor da imaginação dos visitantes. Para isso também contribui o facto de Pedro Jafuno ter começado a fazer anotações e a guardar documentos associados a cada imagem, que fazem com que o projeto se afirme para além da imagem fotográfica numa agradável fusão que nos faz perder nos labirintos da história/viagem que o autor nos conta.

O júri, presidido pelo curador, jornalista e crítico do jornal Público Sérgio B. Gomes, referiu que Pedro Jafuno“foi capaz de sair do batido relato de viagem e do desejo de conto romantizado“, construindo um objecto revelador da relação contemporânea com a geografia e com o desconhecido, orientada ainda “pela intuição e pelos sentidos”. Na realidade, por todas as imagens trespassa um sentimento muito pessoal de alguém que nos quer contar algo, por imagens já que as palavras poderiam não chegar ou serem suficientemente esclarecedoras.

É assim que o projeto nos leva a uma proximidade emocional com aqueles lugares. Se é verdade que o projeto no seu todo nos reporta para os London Diaries (1994) e para Uma viagem a São Petersburgo (1998), ambos de Daniel Blaufuks, fórmula também já experimentada por outros fotógrafos, a verdade é que a opção de Pedro Jafuno serve perfeitamente o conceito que foi adotado pelo fotógrafo. Acrescem algumas particularidades que importa realçar: em primeiro lugar a escala adotada e em segundo lugar a coerência do conjunto. Quanto à escala é visualmente agradável, sem se impor, como que uma história pessoal que sorrateiramente se nos apresenta e sem a qual não podemos imaginar aquelas imagens de outra forma. São imagens íntimas e vividas que pela sua construção mostram um olhar educado ao qual acresce um bom tratamento e impressão do preto e branco. Acreditamos que tal só é possível pelo percurso do autor, que fazendo fotografia comercial, não esquece e cultiva a sua vertente de autor.

Foi a duplicidade entre a expressão autoral e o trabalho comercial que o autor exerce, que levou a uma vontade de rutura que o autor confessa. Numa entrevista ao DNotícias.pt, com texto de Paula Henriques, transcrevemos um parágrafo que define muito o trabalho de Pedro Jafuno e da sua forma de olhar para a imagem: “gosta de usar filme e de escolher câmaras específicas dependendo do trabalho. A máquina diz, muda completamente o acto fotográfico, obriga-o a adaptar-se para conseguir o que quer e com isso a usar a imaginação. Se utilizar sempre a mesma, não há espaço para a evolução, justifica. O facto de não ter o resultado logo faz também com que pense muito mais no que está a fazer. Esse espaço para reflexão é muito importante para o que eu faço.”

Além de Sérgio B. Gomes, do júri dos Novos Talentos FNAC 2016 faziam parte Mário Cruz, Augusto Brázio e Margarida Medeiros, que decidiam atribuir menções honrosas a Ana Borges, com o trabalho Terrain Vague e a Mariana Lopes com Limbo.

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