A propósito da imagem vencedora do World Press Photo

captura-de-tela-2017-02-13-as-10-44-13 AP Burhan Ozbilici

No jornal Público de ontem Sérgio B. Gomes publicou um artigo notável com o título “Aprender a ver imagens”. Pensamos que se trata de um artgo muito pedagógico para todos aqueles que fazem fotografia e por isso o reproduzimos aqui. Tudo partiu da imagem vencedora do World Press Photo deste ano, da autoria de

“Nestes dias de burburinho à volta da moralidade, da ética, da deontologia e da decência na decisão de se reproduzir (ou não) a fotografia vencedora do World Press Photo 2017 dominará a presunção de que a nossa opinião é a mais acertada. O Facebook incendiar-se-á com argumentum ad nauseam. As posições políticas extremar-se-ão. A caixa de email do concurso de fotojornalismo com sede na Holanda é capaz de ficar entupida com tantas reacções de protesto e de apoio. E a revelação de que o presidente deste salão de fotografia (Stuart Franklin, da Magnum votou vencido já fez o papel de cereja no topo do bolo. Todos os servidores serão poucos para aguentar a discussão sobre se o fotojornalista da AP Burhan Ozbilici deveria ter fugido ou carregado no botão da câmara no momento em que, de dedo em riste e de arma em punho, Mevlüt Mert Altintas gritou: “Não se esqueçam da Síria! Não se esqueçam de Alepo!” As casas das máquinas onde se cruzam os cabos de rede já fumegam com tanta homilia sobre o pecado (ou o tino) de se dar à estampa a expressão vulcânica do ódio de Altintas, a consumação do crime e o seu regozijo em tê-lo acabado de cometer.

Vou tentar contribuir o menos possível para a gritaria.

Caricaturando um pouco (e resumindo muito), as opções dos media nos dias 19 e 20 de Dezembro de 2016 andaram, grosso modo, entre o higiénico/beato (versão “é melhor não publicar, porque ainda posso chocar alguém”) e o realista/pragmático (versão “o mundo também é isto, e, neste caso em concreto, é nosso dever mostrá-lo tal qual ele é, ainda que isso possa chocar alguém”). No que diz respeito ao fotojornalismo, prefiro mil vezes sites e jornais que me mostrem os acontecimentos do mundo tal como eles são (e que me deixem decidir sobre a moralidade, honestidade, integridade, propriedade, justeza, probidade ou política do seu conteúdo). Desconfio dos media que omitem coisas, que truncam a realidade segundo supostos valores morais e éticos. Por isto: com os primeiros sei com o que conto se voltar a eles; nos segundos posso nunca saber o que ficou por mostrar ou o que se omitiu deliberadamente, o que fica por trás de uma neblina paternalista e inchada de saber profissional.

É claro que há fotografias impublicáveis (feitas por fotojornalistas ou outros). Vi algumas dessas imagens recentemente a propósito da chacina entre prisioneiros no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, Manaus, no Brasil – com a diferença de que não se pode chamar àquilo fotojornalismo, mas sim o grau zero do aproveitamento sádico e mórbido por parte de um miserável predador de cliques mascarado de órgão de informação. 

Sem mais delongas: sim, a fotografia de Burhan Ozbilici é publicável por qualquer órgão de informação que preze o dever de informar e o direito à informação. O direito à informação não acaba nos textos, nem nas vozes (que podem ser tanto ou mais explícitas, gráficas ou pornográficas do que as imagens). O direito à informação inclui imagens (fotográficas, videográficas, infográficas). E, eu sei, as imagens às vezes “mordem”, perturbam-nos, chocam-nos, fazem-nos chorar (já vi pessoas aqui na redacção do PÚBLICO a chorar por causa de fotografias que viram em agências de notícias).

Mostrar a realidade não é um exclusivo dos jornalistas. Aliás, os jornalistas e os fotojornalistas não só não têm esse exclusivo, como o que mostram e o que dão a ouvir (em palavras, em imagens e em sons) é fruto de uma interpretação subjectiva da realidade (embora enquadrada por regras profissionais).

Mas, apesar de toda a subjectividade no exercício da sua profissão, é dever dos jornalistas mostrar a realidade (e isto sem qualquer espírito de missionário devoto). E discutir, quando necessário, o que (e se) se mostra, arredando da conversa a moral, a política e a economia. Ou ponderando muito argumentos do tipo daquele defendido por Stuart Franklin, segundo quem estaríamos a promover “a ligação entre martírio e publicidade” ao dar um prémio de escala global a Ozbilici. Como? Mevlüt Mert Altintas não precisaria do World Press Photo, do fotojornalismo, do jornalismo, das conferências de imprensa para dizer o que disse. Nem para mostrar o que queria mostrar. Nem para ampliar a mensagem que queria ampliada depois de ter cometido com frieza o crime bárbaro que cometeu. Para além da arma que levou no casaco, só precisava de uma ligação 4G, de um telemóvel e de uma conta de Twitter ou de Periscope. E é preciso lembrar que para além do fotojornalista da AP, houve quem entre a assistência tivesse registado o momento do assassinato em vídeo e que o divulgou no YouTube (provavelmente alguém que não é jornalista).

Ao não mostrar uma fotografia com um acontecimento deste tipo, como o fizeram muitos jornais e sites do mundo inteiro, estamos a proteger quem de quê, afinal? Quantos atentados evitaram o Le Monde e outros órgãos de informação franceses ao não publicar os nomes dos autores do atentado que vitimou o padre Jacques Hamel, em Saint Etienne de Rouvray, França, em Julho de 2016? Tenho muitas dúvidas de que uma decisão branqueadora deste tipo possa ter tido algum efeito, depois de as caras e os nomes dos terroristas estarem cravados em tudo quanto é sítio no mundo (nos jornais e fora deles). Para além de ser política, a decisão do Monde, que não queria “ceder” ao desejo de “glorificação póstuma” dos terroristas, é baseada na assunção de que os terroristas procuram “apenas” o reconhecimento que os media lhes proporcionam. Acontece que um jornal não é um partido político. Não é uma esquadra da polícia. Não é um tribunal. E não é uma sacristia. Como também não pode ser um banalizador da crueldade, da violência e da barbárie, uma máquina reprodutora de imagens gratuitas e descontextualizadas. Um jornal deve recusar o sensacionalismo e a exploração mercantil da matéria-prima com que faz informação. Deve incorporar regras de ética e deontologia e usar critérios de bom senso (mais do que de bom gosto), quando está perante questões complexas como as que levanta a fotografia de Burhan Ozbilici. Mas também deve, num exercício de equilíbrio que não é fácil, recusar a tentação paternalista de esconder imagens com base em pressupostos extra-editoriais, não jornalísticos.

Mais do que proteger os olhos dos outros de imagens chocantes (uma utopia mais ou menos insana nos dias que correm), talvez devêssemos discutir as consequências da velocidade com que hoje se publicam fotografias sem parar um segundo para pensar. Ou reflectir sobre o esvaziamento da função de edição de fotografia nos media (um problema sem solução à vista, que nasceu com as redacções digitais a trabalhar em horários alargados). Ou sobre o fim de uma maneira de fazer fotojornalismo (que até está distante desta imagem de Burhan Ozbilici). Ou ainda sobre a possibilidade do fim do fotojornalismo como garante testemunhal, de profissão com regras claras. O fotojornalismo não tem hoje, que eu conheça, nada que o substitua. E, no entanto, não temos parado de lhe negar espaço (nas páginas dos jornais, nos ecrãs, na nossa cabeça). Qual foi o último ensaio documental profundo que vimos num jornal diário, num site de informação generalista? Trabalhos que envolvem investigação, confiança, relacionamento e lentidão de produção. Talvez esteja mais próximo do que imaginamos o dia em que o fotojornalismo será relegado para festivais de celebração do documento e da verdade, que deixe de estar no nosso quotidiano.

Nesta fase mais acesa da discussão entre o “publicar/não publicar”, “dar prémio/não dar prémio”, “dar prémio principal/não dar prémio principal” talvez devêssemos começar a discutir também outros aspectos da nossa relação com as imagens e sobre a iliteracia reinante quando se trata de lidar com elas, de reagir ou intervir sobre elas.

Por mais que esteja interessado nela (e à minha escala, que seja também parte dela), a discussão sobre a oportunidade da reprodução da fotografia de Ozbilici é mais ou menos uma prova de vida regular e ritualista de classe, acompanhada por uma mão-cheia de leitores/comentadores empenhados e por um incêndio descontrolado de bitaites na densa floresta das redes sociais, sempre prontas a arremessar imagens de um lado para outro, como se fossem bolas de pingue-pongue.

As imagens fotográficas (mais do que outras imagens em geral) têm esse lado espontâneo, que é ao mesmo tempo uma das suas principais forças e uma das suas maiores fragilidades – ou melhor, um dos seus maiores perigos. As fotografias estimulam uma reacção rápida do tipo “gosto”, “não gosto”, “comento”, “deixo um emoji”. Foi neste imediatismo (associado ao narcisismo das selfies e ao filão do revivalismo dos filtros vintage) que cresceu um gigante que se chama Instagram. É fácil (extraordinariamente rápido) “comentar” uma fotografia. Adoro! (como diria Trump). Adoramos. Todos. E, para ajudar à voragem imediata, as fotografias não têm título, não têm lead, não precisam de se “ler” até ao fim. São, aparentemente, um corpo uno, cuja apreensão superficial começa e acaba em milésimas de segundo. “Gosto”, já está. Próxima!

Consumimos imagens de forma crescente pelo menos desde o tempo em que as cavernas de Lauscaux eram a nossa única rede social (com a vantagem de aqui se permitir a publicação de nus integrais e de não haver algoritmos a decidir que pinturas seriam moralmente aceitáveis nas paredes). E não há nenhum sinal de que essa linha de consumo possa cair. Bem pelo contrário. Mas há sinais de que estamos a entrar num nivelamento, em que todas as imagens têm o mesmo valor, a mesma hierarquia, a mesma categoria, a mesma origem, uma autoria indistinta, em que são todas a mesma coisa, uma espécie de white noise que nos entorpece, que nos seduz, que nos encandeia e que nos cega.

Se são assim tão parte de nós, porque não nos ensinam a consumir imagens, a descodificar os seus contextos de produção, os seus usos, a forma como se transformam e metamorfoseiam?

Na escola ensinam-se géneros (jornalísticos e não só) do texto, mas não da imagem. Fará isto algum sentido numa sociedade hipervisual e imagética?

Há alguns anos, durante uma entrevista com o artista Fernando Lemos, ele disse-me que tinha ficado espantado com muitas coisas no Japão. Mas a descoberta mais extraordinária que tinha feito foi quando se deu conta de que no Japão as crianças aprendem primeiro a fotografar e só depois a escrever e a desenhar. E não é para serem artistas, cineastas ou fotojornalistas – “é para aprenderem a ver as coisas”.

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