Léxico, de Daniel Blaufuks na Bienal de Vila Franca de Xira

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Fazer Fotografia não é o mesmo que fazer fotografias. Se dúvidas houvesse desta certeza que tenho há anos, teria desfeito as mesmas no passado sábado, quando de uma visita à exposição Léxico, de Daniel Blaufuks, presente na Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira e guiada pelo autor.

A diferença está no facto, entre outros, em que “fazer fotografias” não é mais que colecionar momentos, dos quais justificadamente podemos gostar, ou serem mais ou menos bonitos, seja lá o que for este conceito, mas que têm uma duração emotiva breve. Fazer Fotografia é como contar uma história, escrever um livro, pensar no todo e no particular. É expressarmo-nos, articulando com coerência vários momentos, tendo um pensamento e fazendo emergir a reflexão com que qualquer artista adorna a sua obra.

A Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira mudou muito nesta edição. Para melhor. As exposições curatoriais existentes nesta edição apresentam-nos uma fotografia com um nível muito superior ao que vinha sendo mostrado nos últimos anos. Uma opção esta que, com maior divulgação e mobilização junto da comunidade fotográfica, poderá contribuir decisivamente para uma maior visibilidade da Bienal.

Como referi, decorreu neste último sábado uma visita guiada à exposição Léxico. Mais do que uma visita guiada por um curador ou um crítico, foi o próprio autor que se disponibilizou a falar do seu trabalho, das suas opções, até das suas dúvidas, contribuindo assim para uma melhor compreensão e usufruto da obra. Se é certo que nela se mantêm marcas características do trabalho de Blaufuks, também é verdade que a presença do autor contribuiu decisivamente para melhor se compreender o trabalho apresentado. Além do mais foi uma excelente lição de Fotografia, de como ver a Fotografia enquanto forma de expressão coerente e articulada com outros saberes, com o fotógrafo enquanto pessoa e enquanto alguém que tem uma determinada postura cultural e até cívica.

Léxico é apresentada na casa sita na rua João de Deus 10/12. E a Casa é tudo, e o ponto de partida para compreendermos esta exposição. Na apresentação Daniel Blaufuks começa por nos conduzir à leitura da exposição mediante a definição de “Léxico”, que “pode ser definido como o acervo ou o vocabulário de palavras de um idioma, ou de uma área de conhecimento”, acervo esse que é mutável e gradual. Daí parte para a fotografia enquanto léxico visual, onde as imagens são palavras com um significado e com simbologias complexas. Diz-nos, na sua apresentação, que não basta ler a palavra, ver a imagem acrescentamos, há que olhar e descodificá-la, ou seja, há que ir para além da simples visualização ou do gosto ou não gosto com que tantas vezes somos brindados de forma simplificada. Há que compreender o porquê, há que sentir, e aqui entra a casa e entra a comparação que no início fizemos a escrever um livro ou contar uma história. É também este léxico que quanto mais vasto for, mais ferramentas nos oferece para compreendermos a expressão artística e mais nos prepara para um cosmopolitismo cultural tolerante e abrangente.

A casa, abandonada há anos, foi deixada quase no seu estado “natural” pelo artista, como se dali tivessem sido retirados objetos e pessoas, e nada mais restasse para nos contar que as memórias do local povoado de imagens esquecidas, deixadas para trás na azáfama da mudança. Imagens e silêncios bem expressas no ritmo de uma arquitetura de pequenas salas, sequencialmente vazias, onde as fotografias se espalham nas paredes degradadas e nos mesmos pregos onde outrora estavam outras imagens, outros objetos, como se quiséssemos à força trazer para o presente esse passado. Afinal, estamos perante um Arquivo de referências visuais e de significados, numa alusão ao tema da Bienal – Arquivo e Observação, onde as imagens são uma metáfora dos últimos habitantes daquele espaço. Léxico é pois uma reflexão do autor sobre o próprio espaço, trabalhando sobre ele, interpretando-o e respeitando-o como se esse respeito se estendesse aos seus habitantes, à sua intimidade.

Mas Léxico vai para além desta alusão ou da notável adequação ao espaço, de tal forma que esta exposição, tal como é, não poderia ser transportada para uma qualquer galeria. E não o poderia ser, nomeadamente pela escada adotada, íntima, pessoal, como que a contar-nos histórias e momentos pessoais de quem lá viveu, num passado é sublinhado pelo uso de passe-partouts típicos da segunda metade do século XIX e inícios do século XX, como que a fazer um paralelo com a época daquela casa. É tudo isto que nos faz pensar naquelas imagens como um todo, como um livro que se escreve, onde tudo se articula entre si. E isto é fazer Fotografia.

Mas Léxico é também uma notável lição de como trabalhar a luz, ora suave e delicada, que nos fazem lembrar ora a luz das naturezas mortas na pintura, ora vibrante, com insuficiências tonais e foco suave que nos remetem para o passado, fazendo-nos lembrar o movimento picturalista. Aliás, o excecional trabalho da luz é um aspeto a que Blaufuks dá particular atenção, numa semelhança com outros trabalhos seus, e que para além de uma evidente alusão à pintura demonstram sensibilidade à beleza das pequenas coisas, sejam essas pequenas coisas a luz ou objetos com os quais nos deparamos diariamente e que por vezes não reparamos em como são belos. E apesar dessas pontes com outras épocas da fotografia ou da pintura, as imagens de Blaufuks são extremamente contemporâneas em termos compositivos, num paradoxo que não deixa de interrogar e perturbar quem olhas aquelas imagens.

Para terminar o lado cívico. Um artista quando expõe não está só a colocar imagens numa parede. Está a opinar, está a participar na vida do coletivo. Este é um daqueles projetos que nos cria um afeto muito especial por esta casa, na qual nem sequer reparávamos ou sabíamos da sua existência se não refletissemos sobre as imagens ali presentes. Um afeto que projetamos sobre a casa directamente, e sobre Vila Franca indiretamente. Nem que fosse só por isso, a cidade e a Bienal já ganharam. António Lopes / Sandra Osório

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