Um bom 2017, Senhor Ministro

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Um bom 2017, também em matéria de fotografia, é o que a APAF deseja aos seus leitores, fotógrafos e amigos e também ao Senhor Ministro da Cultura. Eu sei que o ano já começou, mas também sei que ainda vamos a tempo de concretizar os desejos.

Como não acredito no Pai Natal vou antes dirigir os meus pedidos a quem de direito, nomeadamente a quem tutela a cultura neste país. Gostava em primeiro lugar que a cultura em geral tocasse mais as pessoas, e repare-se que escrevo “mais as pessoas” e não “mais pessoas”. Em primeiro lugar porque não sei se os equipamentos existentes têm capacidade para tal e não me seduzem as filas para entrar na Torre de Belém ou nos Jerónimos. Isto porque quando um Museu age não em função da sua tipologia e do seu acervo, mas em nome das massas de forma indiferenciada, está a prescindir da sua identidade, condenando-se a si próprio numa perspectiva de longo prazo. Se é verdade que mais visitantes significa mais receitas nas entradas e nas vendas da loja, que proporcionam oportunidades de divulgação, estudo e aquisição, a pressão em matéria de conservação é maior, os erros e acidentes aumentam e as condições de preservação, seja a temperatura ou a humidade, tornam-se mais críticas. Por outro lado, há que não correr o risco de adulterar a função dos equipamentos transformando-os numa sala de espetáculo.

A apresentação de bens culturais não é uma atitude neutra. É função das entidades culturais despertar ou renovar a atitude perante o património e a cultura. Daí à motivação da sociedade no seu todo é um pequeno passo. Torna-se um imperativo de cidadania sensibilizar os cidadãos para as questões do património e da cultura, onde cada geração é uma fiel depositária desse ativo que deve transmitir às gerações futuras. A componente cívica não se esgota nos bens culturais. A diferença de fazer e de pensar e, consequentemente, discutir e partilhar ideias são elementos importantes. E poderíamos estender isto a todas as manifestações artísticas. Pode ser o vídeo, a fotografia, e escultura, a pintura, ou muitas outras formas de expressão.

Então, o que está mal?

Está mal a relação dos agentes culturais com o ensino. Não basta levar os alunos das escolas a um museu ou a uma exposição, se os pais não forem motivados a partilhar essa experiência ou se não houver guias credíveis.

Não confundindo o usufruto acessível com um usufruto simplista há que divulgar mais os artistas nacionais, mesmo internamente, e hoje há tantas e tão variadas formas de o fazer. Externamente há um trabalho imenso a fazer junto de curadores internacionais de forma a olharem também para os artistas nacionais. É impossível os artistas fazerem o trabalho dos curadores, por mais apoios que tenham num caminho de poço sem fundo. É possível fazer com que curadores internacionais promovam e incluam artistas nacionais nos seus projetos.

Está mal a pressão imobiliária que está a matar instituições culturais especialmente nas cidades de Lisboa e Porto. Muitas têm vindo a acabar ao longo dos últimos anos, e não é por inadequação aos novos tempos ou pela sua gestão. É simplesmente pela pressão das rendas que lhes quebra as suas raízes e não se vê grandes iniciativas autárquicas que impeçam isto.

É certo que no campo da fotografia temos vindo a assistir a mais e melhores exposições. Mas existe pouco intercâmbio entre portugueses e fotógrafos estrangeiros, ou poucos fotógrafos de outras nacionalidades a participarem em projetos portugueses. Honrosa exceção para os Encontros da Imagem, em Braga, e meia dúzia de curadores nacionais. Algumas entidades poderiam ter um papel importante neste domínio, caso do CPF, se fossem dotadas de meios, pessoal e estatuto para tal.

Está mal também a ausência de uma política de criação de novos públicos, um aspeto que deveria ser pensado quer pelo Estado, quer pelos agentes culturais. Uma exposição, seja promovida por uma galeria ou por um museu, constitui um polo de irradiação cultural e um elo da comunidade, para além de instrumento do conhecimento, de transmissão de saberes, de potenciador da tolerância pela diferença ou compreensão de outras realidades, de agilização de esquemas de raciocínio ou simplesmente de puro prazer. Pode ainda ir mais longe e constituir-se como um importante ator na construção da identidade de um país ou do cidadão em particular. Era até uma forma inteligente de combater populismos.

E há que divulgar mais os eventos culturais. Não bastam apenas as agendas culturais das autarquias, ou alguns programas culturais nas televisões. Infelizmente, por norma, atingem apenas aqueles que já estão sensibilizados para irem ver uma exposição ou visitar um Museu. Há que variar as formas de divulgar a cultura, há que fazer dela um desígnio e um orgulho nacional. Afinal não reivindicamos termos dado novos mundos ao Mundo?

São estes os votos para 2017 no campo da cultura em geral e da fotografia em particular. Não peço muito, nem peço mais. Se os concretizássemos mudávamos muito o nosso panorama artístico. António Lopes

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