Fernando Lemos: para um retrato coletivo em Portugal, no fim dos anos 40

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O Museu Berardo, em Lisboa, apresenta até ao final do ano a exposição Fernando Lemos: para um retrato coletivo em Portugal, no fim dos anos 40, com curadoria de Pedro Lapa.

Esta é uma exposição importante não apenas para o conhecimento e compreensão do trabalho de Fernando Lemos (Lisboa, 1926), mas também para se compreender e refletir sobre o movimento surrealista em Portugal. Com formação na Escola António Arroio e na Sociedade Nacional de Belas Artes, membro do Grupo Surrealista de Lisboa, dedicou-se á fotografia, à pintura, à escultura, ao desenho e à escrita. Dois momentos importantes no reconhecimento da sua obra são a exposição realizada em Lisboa, em 1994, na Fundação Gulbenkian, e o prémio atribuído pelo Centro Português de Fotografia, em 2001. Destaque também para o magnífico catálogo publicado quando da exposição realizada no Museu Berardo, em Sintra, em 2005.

O percurso de Lemos na fotografia começou em finais da década de 40, influenciado pelo movimento surrealista, que viria a seguir. Em 1952 expôs na Casa Jalco, em Lisboa, na companhia de Vespeira (Marcelino Vespeira) e de Fernando Azevedo. Se é verdade que esta exposição reúne um vasto conjunto de retratos de muitos dos nomes conhecidos da vida cultural portuguesa, ela vai muito para além desse registo, permitindo às gerações mais novas descobrir um Fernando Lemos enquanto fotografo e como intérprete da história da arte em Portugal.

Nestas imagens, com os recursos a que por norma os surrealistas recorriam, o artista torna os protagonistas os elementos centrais da composição, dotados de uma aura de excentricidade que os distingue do cidadão comum da época, discreto e silencioso, num país cinzento e triste. Apesar disso, nelas transparece essa tristeza a par com uma simplicidade de elementos que sublinha o papel central dos retratados, ao mesmo tempo que mostram, em cada um deles, a sua personalidade, a sua irreverência intelectual, e a improbabilidade, no que se ultrapassa, em muito, o mero valor documental das imagens. Compreende-se assim Pedro Lapa, o curador da exposição, quando afirma que “são retratos da solidão coletiva“, uma afirmação que resume muito bem a leitura que se faz do conjunto e que reflete o isolamento cultural do país à época. Refira-se, aliás, o carácter ideológico de irreverência e de subversão do gosto que caracteriza o movimento surrealista, cuja chegada a Portugal se revela tardia, por comparação com outras experiências fotográficas na Europa.

As imagens em exposição foram produzidas entre 1949 e 1952, momento que antecipou a ida do artista para o Brasil. São imagens onde a luz é trabalhada conscientemente, por vezes sublinhando uma tensão entre luz e sombra ou entre a expressão e o todo inscrito no espaço fotográfico. Se por um lado significam opções fotográficas conscientes, por outro lado obrigam-nos a olhar para cada uma delas com redobrada atenção,

Em todas as fotografias expostas no Museu Berardo se encontra a cumplicidade com cada uma das personagens (José Augusto França, José Cardoso Pires ou Sophia de Mello Breyner), ou momentos de uma beleza arrebatadora (Glicínia Quartin, Teresa Torga), ou de exaltação interpretativa (Alexandre O’Neill).

Numa exposição que se revela importante para a fotografia portuguesa, pena é que as folhas de sala tenham desaparecido apenas quatro dias (domingo) após a inauguração, não sendo atempadamente repostas. António Lopes / Sandra Osório

 

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