Encontros da Imagem

captura-de-tela-2016-10-28-as-16-40-51 Karen Knorr / The Lanesborough

Até 5 de novembro decorrem os Encontros da Imagem, em Braga. É um conjunto de excelentes exposições e outras iniciativas que animam a cidade, por vezes em espaços improváveis, e fundamentais para quem quer encarar a fotografia na sua vertente artística e de autor. Mais um ano em que é de realçar o esforço da organização em levar até Braga algumas propostas artísticas presentes nos circuitos internacionais, animando a cidade, dando-a a conhecer e assumindo um contributo importantíssimo para a cultura em geral e fotográfica em particular, para a sensibilização para o património local, ou simplesmente para a elevação cívica.

Há alguns aspetos que gostaríamos de destacar que, não sendo diretamente relacionados com a fotografia, não deixam de ser importantes no todo dos Encontros, como forma de cativar público e como forma de garantir o futuro. Em primeiro lugar a disponibilidade de quem estava no apoio às exposições, e aqui não posso deixar de destacar uma das colaboradoras que estava na Casa Esperança, depois o aproveitamento e a divulgação de alguns espaços-tesouro que a cidade tem. Sem esquecer Tibães, a Casa Rolão é uma maravilha, como o é também a Casa Esperança, a fazer lembrar do que a APAF fez em 1990, nos Encontros de Fotografia de Almada, talvez cedo demais na época.

Tirando estes aspetos formais, há que destacar a diversidade de propostas fotográficas apresentadas e o ar descomprometido das mesmas. Talvez o saldo mais significativo destes Encontros seja a coragem de arriscar, que autores e organização tiveram, quer seja nos temas abordados, quer seja na apresentação, o que torna o evento jovem e passível de inspirar outros fotógrafos. Juntemos-lhe ainda o facto de este ano vermos em Braga menos fotografia “tradicional” e mais a ideia e o conceito, numa ótica de modernidade em linha com o que se produz nos circuitos artísticos.

Se quisermos destacar algumas das exposições a lista é vasta. Vicente Paredes (Orihuela, Espanha, 1972) com Pony Congo (Casa Esperança) apresenta-nos duas realidades distintas onde ressalta um acentuado sentido crítico, a provar que a fotografia pode ter um importante papel de análise, denúncia e intervenção social. Num tema que este ano nos pareceu mais difícil de abordar e com fronteiras mais difusas, as questões da felicidade ou da sua ausência que se prendem ao estilo de vida fazem todo o sentido, nesta exposição confrontados entre si num espaço em que os contrastes estão lado a lado. Um pormenor notável, o do livro que acompanha a exposição, onde as imagem que retratam uma vida faustosa, por vezes fútil, têm páginas lustrosas, e as que refletem uma vida dura e difícil possuem folhas ásperas.

Ainda na Casa Esperança destaque para sátira, o domínio técnico e a estética rigorosa de Karen Knorr (San Juan, Porto Rico, 1960) com The Lanesborough. O paradoxo e o “estranho” dos animais no meio formal de quartos e salas do luxuoso hotel Lanesborough não deixa de nos causar interrogações, para não dizer sensações de incomodidade misturadas com deslumbre pelos espaços e pela estética adotada.

Destaque também para a interessante montagem de Cristina de Middel (Alicante, Espanha, 1975), neste conjunto de exposições presentes na Casa Esperança e que constituem a exposição nuclear dos Encontros, sob o nome de Sentimental Ballads. Poderíamos aqui juntar a imaginação de Marta Bisbal (Catalonia, Espanha, 1974) com Kosmos, um trabalho de reflexão sobre a luz e a sombra, ou Birte Kaufmann (Alemanha, 1981) com The Travelers, um trabalho apresentado em Agosto em Colónia.The Travelers são uma visão sobre o quotidiano do maior grupo minoritário e nómada da Irlanda, um mundo à parte, fechado e com papéis muito específicos em termos de género. São imagens fortes plenas de melancolia, tristeza, tédio até. Referência ainda para o magnífico trabalho de luz de Carolin Kluppel (Kassel, Alemanha, 1985) com The Kingdom of girls, tendo como tema a sociedade matriarcal dos Khasi, na Índia e acompanhada de um belo catálogo.

A não perder é também o trabalho de Viviane Sassen (Amsterdão, Holanda, 1972), com Lexicon, presente na Casa dos Crivos, intrigante na abordagem estética, numa aproximação da vida e da morte, onde as imagens vão muito para além das características fisionómicas de cada indivíduo para nos atirar para o mundo do “porquê” e do momento registado. É como se a vida e a morte fossem equivalentes em importância, onde a emoção e a percepção assumem os papéis centrais da exposição e onde nos dividimos entre veracidade e imaginação.

No Museu Nogueira da Silva há uma interessante proposta de Christo&Andrew, Glory of the artífice and liquid portraits, que de imediato relacionamos com a História da Arte e a Arte Pop, mas que refletem a transformação da sociedade do Katar pelo consumo e pelo humor. Christo&Andrew são um coletivo de Daha e oferecem-nos uma proposta com a apresentação pensada até ao pormenor, e também por isso extremamente pedagógica.

captura-de-tela-2016-09-27-as-14-12-55                                                                                       Sonja Hamad / Jin – Jiyan – Azadi | Women, Life, Freedom – The Kurdish Freedom Fighters

Uma palavra ainda para Tibães, um espaço incontornável dos Encontros, com Sonja Hamad (Damasco, Síria, 1986) , num trabalho sobre as combatentes curdas, e para o Museu da Imagem com Malick Sidibé (Soloba, Mali, 1936-2016) e La vie en rose, um conjunto extraordinário de retratos intemporais.

Única nota negativa destes Encontros: a exposição de Sam harris na galeria do Salão Medieval do Conselho Cultural da Universidade do Minho. Quando ao fim de semana Braga, pela força dos Encontros recebe inúmeros visitantes, ter esta exposição encerrada, parece-nos no mínimo absurdo. Será que a Universidade não poderia abrir para este evento de forma excecional. Afetaria os orçamentos?

Destaque pela positiva para o catálogo dos Encontros. Vale a pena.

António Lopes/Sandra Osório

 

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