Fotografia Low-Cost

Imaginemos um fotógrafo, que para aprender a sua profissão estuda fotografia, numa escola de preferência, mas também como autodidata. Tem custos, como ter máquina, objetivas, acessórios, por vezes reparar uma máquina ou uma objetiva que cai, que apanha uma pancada. Por vezes tem de comprar livros, tem de visitar exposições, tem de viajar, visitar museus, tudo com custos.

Desde há uns anos muitas são as Câmaras Municipais e entidades várias que organizam concursos de fotografia, quase sempre para “promover a fotografia enquanto expressão artística” mas que na prática se resume a enriquecer um banco de imagens para uma variedade de posteriores utilizações, quando não a cedência a terceiros. Entre a ilegalidade e o “chico-espertismo” a fronteira dilui-se. Lutámos durante anos contra esta situação, até que nos rendemos ao confronto com uma realidade: a partir do momento em que num pequeno artigo dos regulamentos se diz que o concorrente ao participar aceita aquelas regras (abusivas) elas tornam-se legais, como de um contrato se tratasse. Por isso divulgamos hoje, sem comentários, alguns concursos com os quais nem sempre concordamos e muitas vezes nem isso.

Mas esta moda da fotografia low-cost, e infelizmente já alguns profissionais promovem esta caracterização destruindo não apenas o mercado, mas também a imagem que se tem da própria fotografia, implementando uma ideia de facilitismo, de algo que facilmente se consegue sem saber, sem estudo e sem esforço. Algo que veio para ficar. Mais grave é quando é implementada pelo próprio Estado.

Celebra-se dentro de dias o Dia Mundial da Fotografia. Data interessante de comemorar, que toca no sentir de todos os fotógrafos. Que tal um organismo do Estado convidar esta Associação a realizar uma iniciativa relativa a esta data? Tudo bem, talvez um workshop, com uma duração de cerca de 7 horas, com visualização de milhares de imagens em power-point, cuja execução demorou centenas de horas, com exemplos de imagens de distintas épocas e técnicas, desde 1839 até aos dias de hoje, cuja aquisição também é de considerar. Único senão, a participação teria de ser gratuita ou, no máximo, 3,5 euros por participante. Acresce que a entidade em causa não teria custos. É a contenção de despesas do Estado.

É a fotografia low-cost em todo o seu esplendor. Uma entidade mobilizaria meios técnicos e humanos, deslocaria esses meios, transmitia saberes, poderia ter despesas extra,… em troca de 35 ou 70 euros, menos impostos, consoante fossem 10 ou 20 participantes, para alguém (entidade estatal) comemorar o Dia Mundial da Fotografia. Haja pachorra, já não é apenas a fotografia em versão de low-cost, é mais do que isso, é entenderem que somos todos estúpidos, ou então um incentivo à má gestão, o que em tempos de crise é grave.  António Lopes

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