Intangible Landscapes

Captura de tela 2016-06-21 às 17.07.31

Intangible Landscapes de Gundi Falk (Salzburgo, 1966) é a exposição que pode ser vista na Barbado Gallery, em Lisboa, até 16 de agosto.

Com curadoria de Isa Dreyer-Botelho, Gundi Falk propõe-nos um conjunto de paisagens não reais onde se assume como uma utilizadora da técnica fotográfica em favor de algo, que não sendo uma obra fotográfica no sentido tradicional do termo, se inspira na fotografia para chegar a uma terra de ninguém entre a fotografia e a pintura.

Possuidora de um vasto curriculum de exposições e obras publicadas, a artista austríaca considera-se uma “criadora de imagens e de experiências visuais”, assumindo não ser sua intenção captar o real e o visível, mas o que considera subjacente ao visível, mesmo que considere essas criações tão reais como qualquer outra coisa. Na verdade, se quiséssemos expressar o que poderiam ser aquelas imagens, convictamente poderíamos dizer que são momentos de poesia visual, que nos fazem refletir, advinhar mesmo se aqueles lugares envoltos em mistério existem mesmo.

Ao subverter a forma tradicional do processo fotográfico, “criando imagens em vez de as revelar”, pela ausência de câmara fotográfica e usando apenas o papel fotográfico e a química usada no processo de impressão para criar imagens, aos quais adiciona óleos e vernizes, entre outros materiais, Gundi Falk explora um campo vasto de possibilidades criativas ao qual se junta o caráter único de cada obra produzida. Segundo a  Barbado Gallery, “ao substituir a tela pelo papel fotográfico, Falk trabalha de uma forma que  e assemelha mais à de um pintor do que à de um fotógrafo, deixando que representações  surjam da materialidade abstrata das substâncias químicas utilizadas”. Recorde-se também que os trabalhos apresentados pela artista são todos obras de edição de exemplar único.

Inventado em 1956 pelo artista belga Pierre Cordier, o quimigrama é um processo que se inspira nos primeiros tempos da exploração do registo de imagens ocorrido no século XIX, na criatividade dos anos 20 do século XX e que serve de campo de exploração visual na atualidade a alguns artistas. Não recorrendo a negativos ou ao “queimar” pela luz (como os fotogramas) e usando a quimica e o papel fotográfico como se de uma pintura se tratasse, o quimigrama empurra-nos para o surrealismo das décadas de 20 a 50 do século XX, ou para a criação “pelo acaso artístico”, tão em voga nos anos 60. Aqui, no entanto, a artista assume que o processo criativo é parcialmente calculado, ainda que irrepetível. E tem uma força de expressividade que vai para além do acaso. Que nos faz questionar a imagem ou, como diz a folha de sala que acompanha a apresentação da artista em Lisboa, “o interesse cada vez maior pela fotografia sem câmara veio reforçar e reabilitar a ideia da fotografia enquanto objeto, bem como a noção de que as fotografias não são apenas imagens, mas também coisas, e de que a fotografia pode ser uma arte generativa e não mimética”.

Esta é uma exposição para nos questionarmos e abrirmos horizontes. Bem iluminada, com sequências de imagens cuidadosas e grupos que nos permitem uma leitura de conjunto, pré-definida pela artista, vale a pena ir até ao simpático bairro de Campo de Ourique e visitar a Barbado Gallery. Por último refira-se que, a par com esta exposição na Barbado Gallery em Lisboa, a artista terá até 29 de Junho uma exposição no Museu Nogueira da Silva em Braga. António Lopes/Sandra Osório

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