Depois, de André Cepeda, no Museu do Chiado

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Com curadoria de Sérgio Mah, pode ver até 16 de setembro no Museu Nacional de Arte Contemporânea/Museu do Chiado, a exposição Depois de André Cepeda. São 39 obras, tendo o Porto como cidade inspiradora, realizadas entre 2010 e 2015, trabalho a propósito do qual foi recentemente publicado um livro com o mesmo nome, pela editora Pierre von Kleist, possuindo textos de Sérgio Mah e António Guerreiro.

Depois é muito mais que a exposição de um fotógrafo, é uma exposição que confirma (como se fosse necessário ainda fazê-lo…) André Cepeda enquanto artista visual. O trabalho de observação da realidade citadina, de compreensão dos espaços e da luz e, por fim, a expressão plástica assumida pelas opções de escala entre as diversas imagens presentes. Adicionemos ainda a iluminação assumidamente cenográfica ou a relação entre as várias obras expostas que são notáveis e demonstrativas do cuidado posto nesta apresentação.

Captura de tela 2016-06-03 às 17.20.17

Depois conta-nos histórias onde o ritmo é marcado pela escala, pela montagem e até pelo tipo de molduras, fazendo com que a imagem se destaque, sem que se percam os cuidados da apresentação, num respeito muito grande pelo público. Não se trata de uma exposição meramente documental, ainda que também o seja, mas de uma história que o fotógrafo nos conta e que abre portas à nossa imaginação, suportada pela luz ou por detalhes de uma realidade que não nos são culturalmente estranhos. E isto é aquilo que separa um trabalho documental comercial de um trabalho artístico, que é também um documento.

Depois é um conjunto de imagens que são para serem vistas e sentidas pelo visitante. Ao longo da exposição deparamo-nos com um olhar cheio de significados, no uso correto da escala e onde a luz é tudo. O conjunto é baseado em imagens recentes realizadas no Porto (o tema de eleição de Cepeda), onde a figura humana está práticamente ausente, ainda que a imaginemos a cada imagem e onde nos imaginamos a deambular por uma cidade que advinhamos cheia de segredos, enigmática. Cada imagem é como se fosse uma parte de um texto sobre aqueles espaços, que o autor nos desvenda, levando-nos a descobrir a “sua” cidade. Os ambientes noturnos, os planos fechados, a ausência quase total da figura humana colocam-nos à defesa face a algo que nos parece (e está) escondido, que não se nos revela totalmente. E aqui sublinha-se o conhecimento deste território físico por parte de André Cepeda, ao qual podemos juntar uma capacidade de olhar e ver que é notável.

A atenção ao que nos rodeia, expressa em fachadas, ruínas e ambientes noturnos conferem-nos um ambiente pesado, melancólico, péssimista até. A ausência de movimento junta às imagens um silêncio que, como Sérgio Mah muito bem assinala na folha de sala que acompanha a exposição, faz de Depois um trabalho sobre “o que resta, mas também sobre o que queremos e estamos disponíveis para ver e fazer com as imagens”. Mas não se pense que a ausência da figura humana ou o ar melancólico nos oferece uma visão calma e repousante. Muito pelo contrário. Sente-se a melancolia, mas sente-se também tensão, hesitação perante becos e fachadas, face ao vazio e à escuridão. É também por tudo isto que não é uma exposição “politicamente correta”, apresentando uma alternativa ao Porto do turista, do postal ilustrado ou das noites da Ribeira, e fá-lo não por uma posição marcadamente política ou de contestação, mas porque revela as dúvidas e as inquietações do autor.

A tudo isto poderíamos juntar uma impressão irrepreensível, num trabalho do Blues Photography Studio, recorde-se criado em 2005 por André Cepeda e Sara Coelho, e um profundo respeito por todos quantos colaboraram nesta exposição. Que fantástico é, pela postura que demonstra, um artista reconhecer na ficha técnica a importância de quem imprimiu as imagens, de quem emoldurou ou de quem fez a iluminação, e nesta, há que reconhecer que aquela sequência de imagens no corredor dos fornos é notável, transportando-nos para espaços que imaginamos, íntimos e silenciosos.

Por fim, poderíamos dizer que esta é uma importante e pedagógica exposição para compreender a fotografia enquanto arte nas galerias. A não perder, até setembro. António Lopes/Sandra Osório

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