A Place in the Sun, de Martim Parr, na Barbado Gallery, em Lisboa

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Até 11 de novembro está patente em Lisboa, na Barbado Gallery, A Place in the Sun, de Martin Parr.

Quando nasceu a Barbado Gallery, em entrevista ao suplemento Ipsilon do Público, o seu responsável, João Barbado, assumiu que esta não ia ser mais uma galeria de fotografia e citamos “é uma galeria que visa dar a conhecer e tornar acessível à cidade de Lisboa e ao país a obra dos grandes fotógrafos contemporâneos”. É, pois, imperdoável se ali não formos ver a exposição de Martin Parr, um dos mais significativos nomes da fotografia contemporânea, e de conhecermos o seu trabalho com base em imagens expostas e não nos ficarmos pelos vídeos e livros.

O historial das galerias de fotografia em Portugal não tem sido feliz, ainda que tenha sido marcante. A Ethér, Vale tudo menos tirar olhos, de António Sena, nos anos oitenta marcou um ponto de viragem na forma de expor fotografia e de olhar com uma atenção redobrada para a fotografia portuguesa. A 1839, com Carlos Gasparinho, na década de noventa, timidamente olhou para a fotografia como um mercado artístico, e mais recentemente a Pente 10 e a Dear Sir Gallery assumiram esse mercado, num meio difícil, fechado, desconfiado e reduzido, como é o mercado da arte e do colecionismo nacional. A Barbado, junta a esta luta por uma presença no mercado da arte uma outra atitude. É o lado cívico de João Barbado, que pode ser visto no entusiasmo com que fala da visita das escolas e numa afirmação que sublinhamos: “se fizermos dos que aqui entram pessoas mais cultas em termos de arte, estamos a contribuir para termos melhores cidadãos”, e isto é notável e merece ser sublinhado.

A exposição que a Barbado Gallery nos apresenta fala-nos da massificação, tema de eleição de Martin Parr, que através das suas imagens de praias, assunto que vem a ser trabalhado desde os anos oitenta, nos apresenta um olhar crítico e irónico, por vezes cómico, sobre o comportamento humano e das relações sociais. Pode ser a presença do desproporcionado cisne, do lixo deixado pelas pessoas, das jóias baratas exibidas na praia ou a desconcertante presença de uma escavadora, mas onde um fio comum feito de um olhar atento e opinativo une todas as imagens. Na folha de sala, o texto de Agnès de Gouvion Saint-Cyr, também presente no catálogo, esclarece-nos que “Martin Parr dedica todo um corpo artístico a pintar, em pequenas pinceladas, estas migrações estivais, comparáveis às das aves migratórias que chegam com os dias ensolarados. A escolha de férias à beira mar não é inocente na medida em que faz contrastar a ideia de felicidade, sol e praia com a realidade muitas vezes sórdida das multidões, do barulho e da sujidade”. E mais ainda nos diz, quando afirma que esse olhar crítico de Parr não é feito de maldade gratuíta, antes se limitando a registar ocorrências e associações de ideias a personagens. E, note-se, somos nós que fazemos essas associações. Poderíamos até dizer que Parr nos chama à atenção para o ridículo, a superficialidade e para o desprezo com que tratamos as pessoas e as coisas, em movimentos de sonambolismo ecológico e de comportamento maquinal. Não nos fala diretamente da criança que durante um ano inteiro sonhou com a praia e, no período estival, a vai gozar cheia de lixo. Mas faz-nos pensar no lixo que deixamos nas praias e nos nossos comportamentos sociais. Por isso também, como nos diz Agnès de Gouvion Saint-Cyr, o artista nos chama à atenção para “os pequenos nadas da vida quotidiana”. Por isso se compreende, também, que Agnès de Gouvion intitule o seu texto presente no catálogo de “Martin Parr: poeta do absurdo”.

Para Parr a fotografia é um laboratório social e o comportamento das pessoas, onde quer que elas estejam, num supermercado ou numa praia, define o que cada um é em termos individuais e de comportamento grupal. As imagens, no entanto, vão além disso e dão-nos preciosas informações em termos sociais, de consumo, de gostos. Juntam a isso um valor documental que caracterizam uma época e um lugar. São, pois, imagens com um valor histórico que definem os nossos dias em termos antropológicos, sociais ou políticos e deixam para o futuro preciosas informações.

Para quem está a chegar à fotografia estas imagens constituem também uma excelente lição de fotografia. Tal como acontece na generalidade da arte contemporânea, aqui também se sublinha a importância do conceito num corpo de trabalho coerente. A técnica, bem presente, é apenas uma ferramenta ao serviço de uma ideia, de uma mensagem e de uma afirmação estética.

Martin Parr dizia há dias, em entrevista a Celso Martins do Expresso, que uma boa fotografia “é aquela que possui uma visão distintiva e uma ligação ao mundo. É a natureza dessa ligação que é decisiva”. Tudo isso está nesta exposição, a segunda de Parr em Portugal – a primeira foi em Braga, em 1999 – num conjunto de imagens tecnicamente irrepreensíveis, quer na execução – o trabalho com diferentes planos e a sua relação com o uso da profundidade de campo adequada é notável – quer na impressão laboratorial. A galeria só podia ter aquelas cores face aos trabalhos apresentados, o que denota uma preocupação expositiva que é também de realçar.

Para ver o trabalho de Martin Parr, do qual algumas imagens estão expostas na Barbado Gallery, sugerimos uma visita a http://www.martinparr.com/

António Lopes / Sandra Osório

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