19 de agosto – Dia Mundial da Fotografia

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Comemora-se hoje o Dia Mundial da Fotografia. O aparecimento da fotografia revelou-se consequência de um mundo em mutação. Numa Europa que vivia uma rápida industrialização, que conhecia a expansão dos caminhos de ferro em simultâneo com uma crescente migração de populações rurais em direção às cidades, onde as máquinas crescentemente substituíam as pessoas nas tarefas de produção e onde se conhecia uma crescente estratificação da sociedade urbana, a fotografia foi algo que nascia com a característica de ser vista simultaneamente como ciência e como novo meio de comunicação, como uma forma de negócio, por vezes de muito baixo nível e, ao mesmo tempo, com acesso aos locais mais seletos e reservados. Foi uma duplicidade que nasceu com ela, cresceu e vem até aos dias de hoje.

Por isso a fotografia é muito mais complexa que o simples ato de carregar no botão e por isso há, neste dia, alguns motivos para reflexão de todos os que olham para a fotografia de uma forma diferente dos que são meros utilizadores. Claro que poderíamos falar da imagem enquanto forma de influenciar o consumo ou enquanto intérprete de factos, mas… vamos para além disso!

De positivo temos que a fotografia atingiu a maioridade. Está presente em galerias de arte, cria-se e apresenta-se como qualquer outra forma de expressão artística e negoceia-se como qualquer obra de arte. O trabalho de inúmeros fotógrafos é reconhecido internacionalmente e os certames de fotografia são inúmeros em todas as partes do mundo. Acresce que a fotografia, hoje, soube adaptar-se às mudanças que a imagem digital trouxe ao nosso mundo, não apenas no plano da imagem propriamente dita, mas da comunicação em geral. Particularmente, no caso português, em 2015, criar e expor já não se revela uma excentricidade como o era há vinte ou trinta anos atrás.

De negativo também temos alguns motivos que causam preocupação. Continua a haver uma faixa de público e de produção de baixo nível. Não é que nem sempre tenham existido, não é que o desconhecimento pela História, pelos autores, pela cultura visual seja algo de novo. Sempre houve. Mas o que é certo é que é cada vez mais acentuada a divisão entre dois mundos, um erudito, frequentador de galerias, que pensa a imagem com base num conceito e com preocupações de criação, e outro, mais preocupado com a objetiva mais comprida ou com a discussão vitoriana do século XIX de saber se os melhores são os amadores ou profissionais, ou em produzir exóticos clichés cheios de vazio (a palavra é do século XIX ainda que com outro sentido). O que causa preocupação são os horizontes culturais fechados num mundo que é aberto e onde a aprendizagem e a informação são hoje mais acessíveis que nunca.

As escolas de fotografia (todas) têm desde há anos travado uma luta incessante em prol da cultura fotográfica dos seus alunos e associados, luta a que se têm associado muitos museus, galerias ou entidades culturais. Mas mais do que formar alunos, sócios ou visitantes, todos estes agentes culturais têm contribuído por formar cidadãos mais cultos, mais tolerantes na arte, mas também por consequência na diferença de criação e de interpretação, e logo cidadãos mais livres e mais preocupados com o todo social. Poderíamos dizer que a fotografia e por arrasto, a arte e a cultura, são as armas com que muitos constroem uma sociedade melhor. Aí temos de agradecer a Daguerre, Arago, Talbot, Bayard, Herschel ou Florence, entre muitos outros, para que hoje vejamos fotografias nas paredes de uma galeria, para que sejamos mais tolerantes e com um olhar mais abrangente, para que demos o nosso contributo para a construção de um mundo melhor. Afinal ainda existem utopias! António Lopes

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