Toda a memoria do mundo, parte um, de Daniel Blaufuks no MNAC até dia 22 de março

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Com curadoria de David Santos, e coordenação do próprio David Santos e de Emília Tavares, está patente ao público até ao próximo dia 22 de março, no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado, em Lisboa, Toda a memoria do mundo, parte um, de Daniel Blaufuks (Lisboa, 1963).

Este trabalho, de um dos mais significativos artistas contemporaneos portugueses no domínio da imagem, relaciona-se com o projeto de doutoramento que Blaufuks tem desenvolvido na University of Wales, em Newport. Uma exposição que se vai descobrindo à medida que avançamos de sala em sala e que abre com um filme de 4 horas e 35 minutos feito em Terezin, na República Checa. Porquê 4 horas e 35 minutos de um filme que o fotógrafo afirma que não espera que o público veja na totalidade? Simplesmente porque estamos a mostrar um campo de concentração do qual, em 1942, foi passada a imagem de ser um lugar modelo destinado à elite judaica, para onde as pessoas foram de livre vontade. Um espaço embelezado, onde uma vida artificial foi criada, nomeadamente com um banco, cafés, lojas, uma sinagoga, o que originou um relatório muito favorável por parte da Cruz Vermelha, na sequência de uma visita de delegados desta organização que visitaram o campo… durante 4 horas e 35 m, segundo relatos da época. Não seria de esperar outra coisa de Blaufuks que não um projeto pensado de acordo com um conceito prévio, mas este é um bom exemplo de como hoje já não se juntam acriticamente vídeos ou fotografias e nasce um exposição. A presença de um conceito, de uma mensagem ou de uma linha condutora entre as imagens apresentadas é hoje uma obrigatoriedade em arte. É aí que emerge a coerência de pensamento, que distingue a produção artística da fotografia enquanto disparo casual, ainda que esta emocional ou visualmente possa ser muito apelativa.

O filme de Blaufuks, onde há que reparar entre outras coisas, em enquadramentos de uma modernidade que vêm na linha de outras imagens produzidas pelo artista, onde uma montagem pensada nos causa estranheza, fazem-nos sentir que Terezin é um espaço ainda hoje marcado pela memória. Se hoje é uma cidade bucólica, com espaços quase de postal turístico, a memória da realidade que foi, expressa-se na questão do movimento versus tensão que sentimos ao ver as imagens do filme. Com planos muito parados, onde as pessoas ou os carros surgem do nada e passam perante uma câmara quase invisível, estratégicamente colocada, por forma a que quem assista ao filme, sentado à distância correta em relação à dimensão da projeção se sente verdadeiramente como vivenciando aquele espaço, criando uma sensação de tensão que emerge a partir da calma dos planos captados. É aqui que se destaca a modernidade estética de algumas imagens, com um trabalho de luz cuidado, que de tempos a tempos nos chama à realidade mais crua pela inclusão de imagens da época, como se de um alerta se tratasse para que esses tempos do passado, desta e de outras “Terezins”, não voltem. É esta luta entre planos fixos e o escasso movimento em frente à câmara, é a inclusão de imagens de uma realidade passada desajustada do que vemos hoje, que nos faz pensar e que confere algo de violento ao confronto dos mesmos locais, hoje e na altura da Segunda Guerra Mundial. E também por isso que, ao vermos os mesmos locais, enquadramentos e até objetos, nos interrogamos se o Homem mudou assim tanto após 1939-45.

Por isso, esta exposição é bem mais do que uma apresentação artística para ser também um manifesto do autor sobre este tema, algo que o faz desde os Encontros de Fotografia de Coimbra (Rheta ou o ciúme da morte – uma pequena homenagem a Ilse Losa. Fotografias sob céus estanhos – Terras do Norte, 1995), em 1995. No catálogo então publicado Blaufuks esclarece que, sendo neto de judeus alemães, que em 1946 se refugiaram em Portugal, também eles sentiram como é viver sob céus estranhos em consequência da sua situação de refugiados. Refira-se a propósito que Terezin, conhecerá também um primeiro olhar de Blaufuks em 2007, em exposição realizada no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

Constituindo o Holocausto o tema central dos trabalhos de Blaufuks enquanto artista, aqui vai mais longe e ao percorrermos a exposição sentimos um envolvimento, um estado de espírito, que ultrapassa a mera informação documental ou expressão artística. É como se o autor vivesse a militância de uma causa, que por razões sentimentais, familiaras ou de opinião constituisse o projeto da sua vida.

A apresentação é repartida pelo vídeo, pela fotografia, por montagens de imagens de diferentes origens e ainda por um conjunto de livros abordando esta temática, sendo o público levado a unir todas estas informações visuais aparentemente distintas. Se por um lado a fotografia é assumida como uma componente residual do conjunto, o jogo duplo do tempo passado/presente é acentuado na sala do 1º andar onde um conjunto de painéis reúnem imagens que, em sequência, nos contam histórias de pessoas e de lugares, numa espécie de mapas visuais, que ao mesmo tempo que nos evocam o passado nos fazem sentir no presente, distantes no tempo.

Esta parte da exposição que Daniel Blaufuks apresenta no MNAC, tem por base e relaciona duas obras fundamentais da literatura europeia: W ou le souvenir d’enfance (1975), de Georges Perec, e Austerlitz (2001), de W. G. Sebald. O autor inspira-se nelas e leva-nos por um mar de pensamentos que têm a ver com a ideia que nós, visitantes, temos sobre o assunto ou mesmo do domínio do simbólico. Desde imagens que se assemelam com as sempre presentes filas de deportados, à omnipresença do comboio ou até a conjuntos que nos conduzem aos portões de Auschwitz, como se de um fim se tratasse.

Por outro lado, esta parte da exposição constitui uma forma de, para o artista visual e para o público, valorizar os arquivos, neste caso de imagens. Não é tanto a necessidade de produzir imagens, mas antes de refletir sobre a imagem, de como a utilizar e do seu papel quer informativo, quer de relação de poder com as pessoas, questionando mesmo se esse poder é real e se uma fotografia por si só consegue sobreviver no mar da produção visual hoje existente. Como Blaufuks diz na folha de sala da exposição ao “reutilizar uma fotografia, estamos a criar sentido”. É ainda o autor que nos diz, na mesma folha, que “é de facto uma ideia muito poderosa, ainda que romântica, a de que as fotografias poderiam ter uma memória elas próprias. De que não somos nós que lhes atribuímos uma memória, mas sim elas, as fotografias que no-la dão. É verdade que a força ou o valor de uma imagem será diferente à medida que os tempos mudam, à medida que as pessoas ou os lugares representados desaparecem ou à medida que a memória desses lugares ou pessoas se desvanece. O valor de uma fotografia, enquanto documento ou recordação, enquanto desencadeador emocional de sentimentos, depende da informação em torno do seu conteúdo. De certo modo, a fotografia é um cofre com vários compartimentos, cada um com uma chave própria. À medida que as chaves são perdidas ou, eventualmente encontradas de novo, o valor da fotografia muda.” É como se ao visitarmos esta exposição aquelas imagens nos permitissem reinventar outras realidades ou outras ideias. É esse o papel do artista. António Lopes / Sandra Osório

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