Hoje, dia mundial da fotografia – um olhar sobre o passado

DSC_1316

“ (…) Na Opéra, (…) as decorações deste novo pintor (Daguerre) obtinham, em todas as representações, imenso sucesso. As crónicas teatrais ou as gazetas não falavam de outra coisa que dos efeitos da luz móvel, do movimento aparente do sol e o nome de Daguerre ouvia-se de boca em boca (…). No dia 1 de julho de 1822 a multidão precipitou-se em direção a um novo local no boulevard. Ela queria contemplar, pela primeira vez, um espetáculo que, durante longos anos, seria objeto de admiração geral. Daguerre associara-se ao pintor Bouton, e os dois imaginaram reproduzir a natureza através de enormes telas, onde os assuntos seriam colocados em relevo mediante uma iluminação adequada.

As imagens do Diorama representavam vistas, interiores e paisagens, com uma enorme veracidade e uma qualidade de execução verdadeiramente surpreendente. Mas aquilo que encantava os espetadores era a mudança gradual das cenas como que se fundindo umas nas outras (através da luz) para se sucederem sem interrupção apreciável. Toda a Paris via o Diorama de Daguerre, toda a Paris aplaudia (…).

Na execução das telas, Daguerre usava uma camera escura, esforçando-se por reproduzir fielmente a imagem projetada num écram depois de ser filtrada pelo vidro de uma lente (…) “.

A partir daqui a caminhada de Daguerre em direção ao daguerreotipo faz-se pela colaboração, em 1825, com Charles Chevalier, ótico parisiense, e principalmente com Nicéphore Niepce, que desde 1813 vinha fazendo estudos e registos com base na litografia. Aliás é Niépce quem recorre ao Betume da Judeia, substância sensível á luz, com a qual faz os primeiros registos de heliogravura.

“(…) A criação de Niépce não é mais do que o gérmen da fotografia, apesar de possuir grandes inconvenientes. O betume da Judeia é uma substância que apenas se sensibiliza muito lentamente, e de uma forma pouco sensível, sob a ação da luz. É preciso deixar a placa metálica (chapa de cobre) na câmara escura durante mais de dez horas, e o sol durante este periodo faz deslocar a luz e as sombras, produzindo uma imagem sem definição, que aparece imprecisa e fraca (…)”.

A associação entre Daguerre e Niépce concretiza-se, em 1827, e produz-se após alguma troca de correspondência entre os dois. Nem sempre estiveram de acordo no rumo que as investigações tomavam. Registe-se a descrença de Niépce no uso do iodeto de prata.

Niépce faleceu em 5 de julho de 1833, e entre esse ano e 1839, Daguerre empreenderá uma caminhada solitária que o levará á descoberta do daguerreotipo e à apresentação pública do mesmo. Pelo meio temos as melhorias técnicas, o processo reduz o tempo de execução para uns meros 3 a 30 minutos, mas também questões políticas, como o facto de calotipo (processo inventado por Talbot) predominar em Inglaterra onde o daguerreotipo era raro, ou este se afirmar na jovem nação que eram os EUA em detrimento do primeiro, oriundo da antiga potência colonizadora. Até Portugal conheceu a diferenciação, onde embora os dois processos fossem praticados, as elites inglesas do norte preferiram o processo de Talbot, talvez por influência de um grande calotipista ali radicado, de nome Frederick Flower e dedicado aos negócios do vinho do Porto.

De qualquer das formas o processo de Daguerre será apresentado à Academia das Ciências de França que recomenda o seu estudo. A 12 de agosto estão expostas publicamente algumas imagens e a 19 de agosto realiza-se formalmente a apresentação pública do processo, em sessão conjunta das Academias das Ciências e das Belas Artes de Paris. A Nicéphore Niépce, a Daguerre, a Fox Talbot e a Hercules Florence, devemos hoje fazer a fotografia que fazemos, resultado de um longo caminho com 175 anos. António Lopes

Notas – trancrições La Photographie, de Gaston Tissandier, 3ª edição, Paris, 1882. Gravura, da mesma obra – o diorama de Daguerre.

Alguma bibliografia básica sobre História da Fotografia – A World History of Photography, Naomi Rosemblum; A New History of Photography, Michael Frizot; Histoire de la Photographie, Jean-Claude Lemagny/André Rouillé; A Câmara Clara, Roland Barthes, Edições 70; Ensaios sobre Fotografia, Susan Sontag; Ensaios Sobre Fotografia de Niépce a Krauss, org. Allan Trachtenberg.

Esta entrada foi publicada em Opinião. ligação permanente.