Para pensar

Será que estamos anestesiados? E que a anestesia é geral?

Desde há algum tempo as exposições coletivas, e muitos artistas em particular, têm problemas com a deslocação das suas obras por uma questão meramente burocrática, relacionada com as necessárias guias de transporte. Poucos foram os que notaram e o assunto é recente.

Por uma razão ou por outra todos conhecem dificuldades. O coletivo Kameraphoto, apenas o mais importante coletivo de fotógrafos e com nomes incontornáveis na fotografia portuguesa contemporânea, abandonou as suas instalações. Inúmeras instituições associativas e culturais sobrevivem (até quando?) graças a uma lei do arrendamento feita na secretária sem ter em conta a realidade. Nenhuma alma pensou que encerrando alguns espaços culturais, de formação e/ou de divulgação, estamos a matar a diversidade cultural e a vida de muitos bairros e das cidades.

Não faz um mês foi noticiada a venda (sublinho a venda) em hasta pública do Museu da Cortiça, em Silves, vulgarmente conhecido por “Fábrica do Inglês”, instalado numa antiga unidade fabril datada de 1894. Depois de, em 2001, ter sido distinguido com o Prémio para o Melhor Museu industrial da Europa (!), o seu espólio, com alguns equipamentos únicos, acabaram por ser vendidos sem que o Estado se interessasse, o mesmo estando previsto para o edifício. Constitui exceção a oferta feita pela Câmara local durante o leilão,…mas que não chegou.

Ao longo do ultimo ano, e até há alguns dias atrás, vários artistas anunciaram o fim da sua carreira ou emigraram, pela sua falta de capacidade de resposta à invasão de artistas fabricados pelas televisões.

Em Sintra o Museu do Brinquedo prepara-se para encerrar as suas portas. São 90 000 mil brinquedos de todo o género e de várias épocas cujo destino neste momento tanto pode ser a instalação num espaço de outra autarquia como os caixotes de um qualquer armazém. É provável que em setembro já não abra as suas portas porque a Fundação que gere o Museu viu os seus apoios cortados. Qualquer pessoa sabe que não é com o valor dos bilhetes que se mantém uma estrutura, e esta tal como deveria acontecer com muitas outras instituições culturais, deveriam ter apoios não para realizar iniciativas, não para sobreviver, mas para profissionalizar, para gerar receitas, para captar financiamentos e se tornar auto-sustentável.

Ontem os jornais noticiavam a saída dos Artistas Unidos das instalações que ocupam há três anos no Teatro da Politécnica, por falta de pagamento de renda. As entidades oficiais prometem acorrer, claro, depois das instituições estarem asfixiadas, à beira da morte, não antes como deveria acontecer. Hoje noticia-se de que o investimento do Estado no ensino superior vai voltar a descer no próximo ano, provavelmente até 14 milhões de euros. Será que ninguém repara na extinção continuada de muitos dos agentes culturais ou das suas dificuldades? Será que estamos anestesiados? Como será um povo sem referências e sem cultura? António Lopes

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