A invasão dos curadores

Até há uns tempos atrás qualquer artista fazia uma exposição e tratava de tudo, desde o conceito à montagem da exposição, passando pela produção das obras. Estava mal, porque a figura do curador é importante e deve ser dado ao artista espaço e paz de espírito para criar e distanciar-se de alguns aspetos da produção e da divulgação, porque consumidores de tempo e energias e porque tarefas especializadas. Mas, o que é ser curador?

Assiste-se hoje a imensa gente a colocar na ficha técnica das exposições a sua auto-classificação de curador e pior de que isso, alguns a interferirem nas obras a serem expostas apenas e só porque fazem um texto, porque são diretores de um qualquer espaço publico que cedem ou determinam em que local fica uma obra. Isso pode ser muita coisa, mas não é ser-se curador de uma exposição. Ainda há dias tive conhecimento de uma situação em que a senhora diretora de um espaço público, perante uma exposição coletiva, sublinhe-se e depois dos artistas distribuirem as obras no local de exposição, marcando ritmos e leituras, tendo uma lógica temática, entendeu que uma das obras deveria mudar de local apenas porque tinha uma moldura de cor diferente. Em primeiro lugar estava a decoração e a uniformidade do espaço, depois a leitura da exposição e das obras. Para além de se reivindicar de “curadora”, porque era a diretora e não porque os artistas a reconhecessem como tal ou porque o fosse de facto, não conseguiu entender que naquelas obras, com aquela abordagem de conceito e dimensão, a moldura teria de ser adequada a uma viagem para além da imagem e não deliminar a própria imagem. Essa leitura, talvez demasiado complexa, resolveu-a mudando a obra de sítio, nem sequer tendo a educação de telefonar aos artistas presentes. Ser-se “curador” pode ser isso, mas não é ser-se curador.

Ser-se curador é conceber o projeto artístico e supervisionar a sua execução. Ao curador cabe também a conceção editorial do catálogo, se existir, e ter a última palavra no press-release em articulação com o responsável pela divulgação na imprensa. Ser-se curador é também estar em articulação com a produção, esteja esta nas mãos do artista ou de serviços especializados, mas nunca ignorando a compreensão das obras do artista. Ser-se curador é trabalhar de forma estreita e cúmplice com os artistas e não apenas determinar onde penduramos os quadros e damos ordens para que o prego seja ali posto. Quando vemos o vídeo de Jorge Molder apresentado no Museu do Chiado, em Lisboa, ou quando vemos o trabalho de alguns curadores, de que me lembro de repente do Sérgio Mah, vemos que ainda há um longo caminho a percorrer neste campo. António Lopes

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