Edgar Martins e A impossibilidade poética de conter o infinito, na Fundação Gulbenkian

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Na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, aconselhamos a não perder A impossibilidade poética de conter o infinito, de Edgar Martins (Évora, 1977). É uma exposição que vale a pena ver, mas também sobre a qual se justifica refletir.

Vale a pena refletir porque esta exposição e a escolha do tema são um exemplo de criatividade, de ambição e de uma forma de trabalhar. Ainda há muita gente que acredita que uma exposição nasce não de um momento de reflexão mas do agrupar de forma mais ou menos criteriosa diversas imagens. E criatividade e reflexão é aqui vista pela escolha do tema e pela existência de uma linha de leitura, onde sobressai o tecnológico quase que numa antevisão do futuro, o minimalismo, que sublinha o primeiro aspeto e o despojamento nas imagens em locais tecnológicamente complexos. Mas é um projeto que mostra ambição por parte do fotógrafo. Edgar Martins revelou que tudo começou com uma carta dirigida à Agência Espacial Europeia, no final de 2011, solicitando autorização para fotografar as suas instalações. Isso revela visão, organização e persistência, algo fundamental para um fotógrafo nos dias que correm. Em entrevista a Sérgio B. Gomes, publicada no jornal Público, o fotógrafo é o primeiro a falar-nos do entusiasmo que colocou nessa sua carta, apontando para o futuro da exploração especial e da necessidade de um diálogo com as artes. Poderíamos aqui acrescentar, como já o fizémos noutro artigo, da necessidade de elaborar bem um projeto deste género, outra das necessidades do fotógrafo hoje.

Mas esta exposição, inicialmente apresentada em Londres e que agora está patente na Fundação Gulbenkian, até 8 de setembro, merece ser vista ainda por mais algumas razões. Num conjunto de imagens, realizadas em nove países, em 2012 e 2013, podemos observar que Edgar Martins se concentrou nos objetos e nos equipamentos, onde só episodicamente se vê o elemento humano, mas onde se advinha permanentemente a sua mão, num exercício de coerência estética de conjunto, que nos leva simultâneamente e contraditoriamente a também nos concentrar-nos no objeto, como se ele estivesse à nossa frente, mas num ambiente frio e despido do calor humano. Revela, por isso, também um projeto pensado previamente quando à sua abordagem estética.

E a propósito do conjunto, destaque para a forma como a exposição está montada, onde o espaço de separação entre as imagens faz lembrar mais uma montagem típica de uma galeria do que a forma comum de exposição de fotografia. Também é verdade que o ritmo da exposição nos leva a uma maior concentração em cada imagem e em cada objeto ou equipamento, do que se as imagens estivessem mais próximas entre si. Destaque também para a coerência cromática seguida na exposição, tendo por base as séries ou o agrupar de imagens, nem sempre necessáriamente dos mesmos locais. Também destaque para a coerência de escala escolhida para os assuntos. Se as imagens de menor dimensão nos obrigam a debruçar-nos sobre os objetos, as maiores levam-nos a contemplar o todo de cada espaço ou de cada equipamento.

Outro aspeto ressalta destas imagens. Um enorme domínio técnico, basta olhar para a leitura dos brancos, (Estrutura ECA, Airbus Defense and Space, Bremem, ou os Circuitos TTL no Museu do Porto Espacial Europeu, na Guiana Francesa, ou ainda a Campanha de Lançamento do Veículo de Transferência Automatizado, também na Guiana Francesa). Este domínio técnico aparece-nos aliado a uma impressão irrepreensível (Cabine do Acelerador Centrífugo, Centro de Treino de Cosmonautas Yuri Gagarin, Federação Russa), traduzindo-se por uma tridimensionalidade, onde uma das imagens mais impressionantes é a Câmara de Ensaios da ESA, na Holanda. Essa tridimensionalidade é-nos dada não só pela impressão, mas igualmente pela luz escolhida e pela sua medição, pelo uso do grande formato e pelo posicionamento exato do fotógrafo em relação à cena fotografada.

Por fim, um vídeo de 25 minutos que nos fala do trabalho e do percurso do artista e que vale a pena ver, produzido para a RTP2 e apresentado na série Entre Imagens. Tudo isto faz com que esta exposição de excecional qualidade seja de visita obrigatória. Até 8 de setembro. António Lopes

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