Rubens, Brueghel, Lorrain. A paisagem nórdica do Museu do Prado no MNAA

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Se ainda não visitou a exposição Rubens, Brueghel, Lorrain. A paisagem nórdica do Museu do Prado, presente no Museu Nacional de Arte Antiga inicialmente prevista até 30 de março e agora prolongada até ao próximo dia 6 de abril, não deixe de a visitar. Para os fotógrafos há dois aspetos a sublinhar, além da consequente educação visual que resulta da visita a qualquer exposição deste género: o notável trabalho da luz dos grandes mestres e a transmissão de uma ideia ou conceito subjacente a uma pintura, algo que também hoje se faz num projeto fotográfico.

Esta exposição encontra-se dividida em nove núcleos, correspondentes às diversas tipologias da paisagem, surgidas no que à época os italianos designavam por “nórdicos”: a Flandres e na Holanda. Esses núcleos abarcam os grandes temas da pintura tendo logo no seu início “A Montanha encruzilhada de caminhos”, simbolicamente um tema alvo de um intenso debate relacionado com a criação do mundo, primeiramente motivado Igreja, mas que ganha um novo fôlego no século XVIII com a tentativa de compreensão da natureza por parte de filósofos e cientistas, e ao mesmo tempo, uma manifestação precoce do conceito estético de sublime que viria a triunfar no século XVIII.

Outro núcleo presente que se destaca é a “Vida no Campo”, onde a pintura surge como um instrumento da propaganda política e religiosa da época, simbolizando uma vida harmoniosa, de paz e abundância, depois de violentos conflitos armados que marcaram a Europa, onde predominou a penúria e a violência, e ao mesmo tempo de uma nova ordem social dominada pela burguesia em ascenção.

“O Bosque como Cenário: a vida no bosque, o bosque bíblico e a floresta encantada, encontro de viajantes”, é outro dos grandes núcleos, onde a natureza nos surge, por exemplo nos quadros de Paul Bril (1553-1626) ou de Jan Brueghel, o Velho (1568-1625), simultâneamente como lugar real e idealizado, ao ponto de no interior dos bosques podermos ter pintados edifícios num conjunto visual e lumínico que visava emocionar o espetador. Sendo também locais que representam um hino à Criação, o que não deixa de constituir uma posição ideologica, são também e simultâneamente um convite ao prazer estético.

“Rubens e a Paisagem”, onde poderíamos destacar “Atalanta caçando” é extraordinário em termos de luz. Peter Paul Rubens (1577-1640) é o pintor que nesta época mais se destaca, sendo simultâneamente um colecionador, um erudito e um humanista, numa versatilidade que transparece na sua pintura. Outros núcleos desta exposição são de realçar: “No Jardim do Palácio”, “Paisagem de Gelo e de Neve”, “Paisagens Exóticas, Terras Longínquas” , onde se descobrem animais imaginários, e “Paisagem de Água: marinhas, praias, portos e rios”, onde podemos ver como nestas paisagens a água e o céu ocupam a quase totalidade da superfície pictórica. A exposição termina com o núcleo “Em Itália Pintam a Luz”, onde esta é usada por Caude Lorrain (1600-1682), ou Nicolas Poussae (1594-1665), como argumento para os temas religiosos.

A exposição é acompanhada por um excelente catálogo, um bom wall-text em cada núcleo e na entrada, a que muito pouco público presta atenção, infelizmente. Bem iluminada, bem montada, peca apenas em legendas pouco legíveis. Se é certo que estas não devem interferir com as obras expostas, e isso aqui é feito pela côr escolhida, pela dimensão, pelo nivelamento discreto e uniforme, o corpo de letra poderia ser ligeiramente maior. A maior parte das exposições poderiam (deveriam) ter uma componente pedagógica para explicar ao público visitante que um quadro de grandes dimensões não de vê a meio metro de distância, mas isso é outra questão… António Lopes

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