Centro Cultural de Belém

O Centro Cultural de Belém, em Lisboa, comemora hoje os seus 20 anos de existência. Para quem se lembra do seu nascimento, recorda as polémicas com a sua localização, com a sua arquitetura ou com a sua dimensão e funções. E afinal, quem imagina hoje Lisboa sem o Centro Cultural de Belém?

Polémicas à parte, colocando de lado também o facto de ser ou não uma obra de regime, esquecendo o lado psicológico de um país que através de um Centro Cultural se queria afirmar moderno e cosmopolita, a verdade é que o CCB representou uma alteração de hábitos de consumo cultural que alteraram a vida de Lisboa e não só. Representou uma cidade em mudança que deixou de se cingir à Fundação Calouste Gulbenkian para ver grandes exposições, e uma cidade que passou a ver com um olhar mais abrangente exposições de arquitetura lado a lado com um espetáculo de música ou uma exposição de fotografia, entremeadas com o prazer lúdico de um café numa esplanada ou um passeio em família. O cosmopolitismo deixou de ser um luxo e passou a ser um hábito. Limitado por condicionalismos políticos, de programação, ora multidisciplinar ora diferenciada e menos abrangente, de gestão de espaço e de meios, o CCB não deixou de constituir uma mais valia para a cidade criando novos públicos e novos hábitos de consumo e de exigência cultural. Por ali passou muita fotografia, nem sempre bem, é verdade. Nem sempre os autores portugueses foram bem tratados. Ali se viram excelentes exposições, como as de Andreas Gursky (1998), Hiroshi Sugimoto (1999), Rodchenko (1999), ou a extraordinária Waterproof, comissariada por Jorge Calado (anos dourados na fotografia?), ou mais recentemente as edições do BES Photo, todas  referências no panorama cultural da cidade e do país.

Mas ao CCB deparam-se novos caminhos em tempos de crise e de mudanças culturais. A Europa de hoje, além de um mosaico de culturas, é também uma multiplicidade de centros de decisão e de produção cultural, e esta realidade é fruto não apenas de uma produção interna mas também de relações com o seu exterior. Cada vez mais se assiste ao potenciar de redes de criação/produção, para as quais deve  concorrer a colaboração internacional, a itenerância de exposições, e a divulgação da criação exterior ao espaço geográfico abrangido. Mais, os espaços culturais que Lisboa tem conhecido nos últimos anos alteraram-se. Tornaram-se mais alternativos, menos formais, recorreram à recuperação/reutilização de espaços com outras funções – Lx Factory, Braço de Prata, Carpe Diem, etc, por vezes chegando a novos públicos, cumprindo uma função de equipamentos de entrada que se revela útil para a cultura em geral. O CCB terá, após vinte anos de existência, de se adaptar e de se articular com outros espaços e atividades. Terá de se adaptar a públicos novos e com características diferentes, sejam elas de interesses, demografia ou mobilidade. Terá de ser capaz de se renovar conquistando novos públicos, agora inserindo-se numa zona, vasta e concorrencial em matéria cultural e que se estende da Torre de Belém até à Cordoaria, incluindo a Fundação EDP e lutando (ou sendo alternativa) a dois gigantes como os Jerónimos e os Coches. Não pode concorrer com grandes exposições internacionais, porque isso tem custos elevados, ainda que ali tenha sedeada uma grande coleção internacional. Então o que fará o CCB para ali atrair um turista americano, inglês ou alemão? Para ali ver o que não pode ver no seu país? Quanto a Lisboa, ela já não pode passar sem o CCB e esse é um elemento que a pode colocar nos circuitos internacionais de arte e cultura. António Lopes

Esta entrada foi publicada em Opinião. ligação permanente.