Displacement 2 de Rita Barros

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Inaugurou na passada sexta feira a exposição Displacement 2, de Rita Barros, na Loja da Atalaia, em Santa Apolónia, Lisboa. Ficando patente ao público até 15 de abril próximo, é uma exposição que surpreende, onde se observa a irreverência da fotógrafa, no contexto da sua história de vida em Nova Iorque. Recorde-se que Rita Barros vive, desde 1984, no Chelsea Hotel em Nova Iorque, espaço indissociável da cena underground novaiorquina desde as décadas de sessenta e setenta.

Desde meados de 2011 que o hotel foi encerrado e vendido, e desde então os residentes lutam contra o seu despejo por parte dos proprietários, sendo as constantes obras uma forma de pressão psicológica sobre os residentes. A forma de apresentação fotográfica torna-se semelhante aos frames de um filme que nos conta a luta contra estas obras, verdadeiro assédio psicológico, e a forma como a autora “desconstrói” os montes de tijolos ou protesta com inscrições nas paredes em sequência de imagens são bem significativas. Refira-se que a exposição é acompanhada por diversos pequenos vídeos que ajudam a contextualizar o conflito vivido.

O conflito é igualmente visível na dramatização e simultânea ironia com que Rita Barros trata as situações que vive diariamente. Neste sentido imagem fotográfica e vídeos completam-se para a compreensão da realidade, sem nunca se perder uma beleza compositiva bem visível na série  Motherfuckers. Aliás, este é o aspeto, em nosso entender, mais marcante desta exposição: a tensão visivel nas imagens e decorrente da oposição entre a destruição/alteração a que o espaço é sujeito e a paradoxalmente oposta beleza do cenário que inclui a escolha das cores – os tijolos e a cor da roupa, e uma adequada impressão fotográfica a estas escolhas. O resultado é intrigante, harmonioso e esteticamente moderno. Ao mesmo tempo a fotógrafa torna mais complexa a abordagem ao recorrer aos tijolos como forma simbólica de destruir a destruição, os mesmos tijolos que também têm a leitura dessa destruição/alteração.

Displacement 2 foi iniciada em meados de 2012, e surge na sequência de Displacement, que António Calpi, em texto sobre a exposição afirma constituir “uma forma de diário expiatório das forças negativas a que Barros tem estado a ser submetida enquanto residente e à qual lhe foi retirada em parte a identidade. Constitui-se como uma resposta artística à descaraterização do seu quadro de vida, físico e mental, até aí centrado no espírito nova-iorquino que presidiu à fixação do culto em volta do Chelsea Hotel, espírito efémero entretanto desaparecido nos escombros da remodelação a que o Hotel está a ser sujeito. Displacement 2 poderia chamar-se The party is Over. Nunca mais o Chelsea Hotel será o que Barros retratou em 1999, no livro, também ele de culto, Quinze Anos: Chelsea Hotel. É ainda António Calpi quem nos diz que Rita barros, “com este trabalho criou um impressionante corpo elíptico de representação dramática da vida e morte do Chelsea Hotel, enquanto lugar emblemático de liberdade criativa de uma era indissociável do imaginário da cidade de Nova Iorque, uma narrativa visual única na história do Hotel e um documento artístico de rara projeção social e política”, o que constitui uma mais valia de um registo fotográfico. António Lopes

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