Augusto Cabrita – retrospetiva

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Inaugurou no passado dia 2 e prolonga-se até dia 5 de maio uma exposição retrospetiva de Augusto Cabrita. Destinada a marcar a reabertura do Auditório Municipal Augusto Cabrita, no Barreiro, esta exposição pretende dar a conhecer as várias facetas deste fotógrafo, nomeadamente na sua atividade fotográfica e cinematográfica.

É uma boa exposição, obrigatória para a reabertura de um equipamento cultural com este nome. Fica-nos a impressão de ter sido pensada e executada de forma apressada e pouco refletida. Primeiro, porque se conhecermos a obra de Augusto Cabrita verificamos que a exposição contém imensas lacunas. Segundo, porque precisava de uma lógica discursiva que não tem. Apresenta-se como um juntar de imagens sem coerência, o que é pena, apesar dos grupos temáticos em que está organizada. Inclusive apresenta vários grupos de impressões: um de impressões vintage, oriundas do espólio da Câmara Municipal do Barreiro, de grande qualidade e que conservam os seus antigos pass-partouts, bem cortados a 45º mas que podiam ter sido renovados e substituídos por uns mais limpos, outro grupo de impressões recentes, provavelmente feitas a partir de positivos, mal executadas porque excessivamente contrastadas e facilmente identificadas por pass-partouts de vulgar cartolina, com originais do espólio da família, outro grupo com colagem sobre cartão da época, numa excelente solução de mostra e por fim, outro grupo ainda de boas impressões, de menor dimensão e provavelmente tiradas diretamente dos negativos originais, estes dois últimos grupos já situados no primeiro andar.

De qualquer das formas é uma exposição que vale a pena ver. Mostra a quem não conhece e relembra aos outros um dos mais importantes fotógrafos portugueses. Um fotógrafo que não só é incontornável no campo da imagem documental do século XX, como não deixa de apresentar laivos de modernidade, vejam-se por exemplo as suas imagens noturnas do Barreiro ou as imagens dos nevões, as primeiras que se aproximam de alguma fotografia humanista, as segundas arrojadas no enquadramento para o que era comum na fotografia portuguesa de então. Falta nesta exposição um enquadramento da obra de Augusto Cabrita no panorama fotográfico da época, onde dominavam os concursos e salões de fotografia e onde se destacava o da CUF, mas onde Cabrita já marcava um caminho alternativo na fotografia com Carlos Afonso Dias, Sena da Silva, Carlos Calvet ou Vitor Palla. Esta é também uma falta do catálogo, onde não é feito um estudo minímo, histórico e estético, sobre a obra de Augusto Cabrita. Recorde-se também que Cabrita vai muito para além das suas próprias imagens, já que também encarnou uma atitude de “rebelião” do ato fotográfico, ao estende-lo para além das curtas fronteiras da época que o cingiam ao fotojornalismo e aos concursos. É também essa atitude que o coloca num seletivo grupo que em 1992 figurou na exposição Olho por Olho – Uma História de Fotografia em Portugal, promovida pela Galeria Éther e que deu origem à Coleção de Fotografia da Secretaria de Estado da Cultura, sendo também a primeira retrospetiva histórica da fotografia em Portugal.

Nascido no Barreiro, em 1923, Augusto Cabrita compreendia como poucos o que era o ambiente fabril e do operariado desta cidade do sul do Tejo. A sua sopa dos pobres, exposta nesta exposição, consegue transmitir esse ambiente. Ao mesmo tempo as suas imagens são de uma riqueza documental ímpar, vejam-se por exemplo as suas ruas do Barreiro, a imagem das corticeiras ou a fotografia da Grande Garagem do Sul. Como atrás se disse algumas imagens ficaram prejudicadas por uma má impressão atual, disso sendo exemplo as embarcações do Tejo ou o Creoula fundeado no Coina, que além de melhor impressão justificavam outra escala que criavam um outro impacto visual na exposição. A este propósito, Miguel Valverde no catalogo da exposição, afirma de forma certeira que “o olhar de Augusto Cabrita captava as coisas simples. Não procurava embelezar os lugares, nem as pessoas. Descodificava o mundo de forma densa e grave. Quando olhava fica-se inquieto”.

Ainda nesta exposição realce para a referência a Augusto Cabrita enquanto diretor de fotografia e realizador no cinema e de televisão, numa apresentação bem marcada em relação ao fotógrafo e interessante sob o ponto de vista expositivo. Refira-se que o seu nome ficou ligado a inúmeros documentários e curtas metragens. Um título merece ser sublinhado: Belarmino (1964) de Fernando Lopes, do qual foi diretor de fotografia, e que marca um novo rumo no moderno cinema português. A exposição reserva uma grande parte do primeiro piso a essa faceta de Augusto Cabrita.

Fica-nos a sensação do muito que Augusto Cabrita ainda tem para descobrir. Disso são exemplo as suas fotografias da guerra colonial, segundo algumas opiniões da época das melhores então realizadas, e que se perderam quase todas. Também poderíamos referir o muito do documental e inovador sob o ponto de vista fotográfico que se conserva em arquivo. E Augusto Cabrita merecia uma exposição bem pensada acompanhada por um bom livro sobre a sua vida e a sua obra.

A exposição é acompanhada por um catálogo cuja nota negativa vai para a seleção das imagens. Já as imagens selecionadas para a exposição podem ser questionáveis, mas as que foram selecionadas para o catálogo parecem depender mais de um gosto pessoal (atual) do que do valor artístico ou documental (da época) por comparação com o que está exposto. De referenciar os textos apresentados, que nos levam a olhar para este grande fotógrafo e refletir sobre o homem e a sua obra lembrando-nos, como Batista Bastos nos escreve que “Augusto Cabrita é (também) uma maneira de olhar”. António Lopes

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